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A reinvenção do Brexit

12 de Julho de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Cassio Furtado

Na última semana, o governo britânico aprovou um documento explosivo, destinado a desagradar tanto os mais radicais defensores do Brexit quanto os milhões que ainda acreditam que o melhor caminho para o Reino Unido seja, justamente, a permanência na União Europeia.

O plano delineado nos últimos dias prevê uma área de livre comércio entre o Reino Unido e a União Europeia para bens industriais e agrícolas, além de afirmar que os cidadãos de ambos poderão seguir viajando aos territórios de um e de outro para estudar e trabalhar. Ele vem sendo chamado de Soft Brexit, ou Brexit Suave.

A proposta causou furor no país como um todo, e, em especial, no ministério da primeira-ministra conservadora Theresa May. Boris Johnson, o ministro das relações exteriores, e David Davis, secretário do governo britânico encarregado da saída da União Europeia, renunciaram. Ambos alegam que o plano defendido por May contraria o que foi decidido, há dois anos, nas urnas. Johnson foi além: afirmou que, se aprovado, o projeto de May transformará o Reino Unido em colônia da União Europeia.

Em junho de 2016, os cidadãos do Reino Unido - da Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte - votaram pela saída da União Europeia. O total foi de 51,9% pela saída do bloco e 48,1% pela permanência.
O processo foi chamado de Brexit, ou Saída Britânica. Ao todo, mais de 33 milhões foram às urnas. Por meses, houve intensa campanha eleitoral.

Os defensores da permanência alegaram que o Reino Unido, com uma população de mais de 65 milhões e com o 5º maior Produto Interno Bruto do mundo, jamais poderia se apartar da União Europeia, um bloco com 28 países, mais de 500 milhões de habitantes e um PIB superior a 17 trilhões de dólares, pouco menor que o dos Estados Unidos da América.

Ao sair do bloco, o Reino Unido pagaria altas tarifas para exportar para os países do grupo, e, consequentemente, perderia negócios e oportunidades de bilhões de libras. Os danos econômicos, eles alegavam, seriam irreversíveis.

Mas falaram mais alto os argumentos dos defensores do Brexit. Diziam que o Reino Unido precisava ser independente uma vez mais, pois havia perdido sua capacidade de agir em um sem número de áreas, que agora eram controladas pela União Europeia. Na imigração, eram forçados a receber refugiados de conflitos mundo afora, principalmente da Síria. Na economia, eram submetidos às metas econômicas do bloco, ignorando os interesses nacionais ou os submetendo às vontades de quase 30 países.

Com a vitória do Brexit, o então primeiro-ministro, David Cameron, ficou incrivelmente enfraquecido. Não só ele tinha liderado a campanha pela permanência na União Europeia, como não acreditava em um futuro para seu país fora do bloco.

Foi nesse momento em que May, a atual primeira-ministra, assumiu. Prometeu liderar o Reino Unido durante o processo de saída. Por centenas de vezes, afirmou que respeitaria a vontade do povo no Referendo de 2016.

Tanto é que, em março de 2017, May enviou uma carta formal à União Europeia, invocando o Artigo 50 do Tratado de Lisboa, uma espécie de Constituição do bloco. O processo de saída é tão complexo e inédito que o artigo dá dois anos para as negociações. Durante esse prazo máximo, Reino Unido e União Europeia deverão entrar em um acordo sobre como formalizar a saída.

O próximo grande passo será dado em uma reunião do Conselho Europeu que ocorrerá em outubro. Até lá, May terá de persuadir os outros grandes líderes europeus - Angela Merkel, da Alemanha, e Emmanuel Macron, da França - da viabilidade de seu plano.

Enquanto isso, o maior desafio será manter o seu próprio governo unido, evitando novas demissões e garantindo o apoio da população britânica. Dessa forma, o Brexit Suave, proposto por May, poderá conduzir a relação entre o Reino Unido e a União Europeia pelas próximas décadas.


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