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Terminações

11 de Julho de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Pedro Moacyr Pérez da Silveira

Todos os dias chegavam folhas ajuntadas por grampos na sua mesa. Eram ali postas pelo homem que trazia as correspondências doutras unidades da fundação. O malote chegava no meio da tarde, pelas três, quatro horas, todos os dias. O carteiro era também o motorista da Kombi que roncava seu motor cansado na praça da frente, vinha cheia de enormes bolsas azul-marinho sobre os bancos. O homem abria de par em par a porta larga que fica no meio desses veículos, olhava os nomes das repartições destinatárias, apanhava uma das bolsas e subia as escadas do casarão com ela às costas. Dirigia-se à Secretaria do Curso, cumprimentando sem interesse quem via pelo caminho, e lá rasgava o zíper daquela sacola grande, entregando a Américo um amontoado de correspondências.

Tanto Walter, o do malote, como Américo, o da Secretaria, trabalhavam na instituição há quase quarenta anos, não se aposentavam, tinham essas vantagens tristes dos que permanecem trabalhando depois de contar tempo suficiente para a jubilação, havia alguma conveniência remuneratória se continuassem por ali. Começaram muito moços seus ofícios, transitando por incontáveis setores da fundação, nem lembravam mais a quem serviram no andar de tantos anos. Eram agora dois funcionários vencidos pelas épocas, a quem se respeitava mais pela idade do que pelos cargos, pois viveram sempre na invisibilidade dos que se estabelecem como auxiliares, em meio a papéis, pequenas mesas, algumas gavetas, grampeadores, furadores, pastas de lombo largo, armários e carimbos.

Eles haviam ingressado na fundação quando o tec-tec das máquinas de datilografia era ainda o som habitual que se escutava nas peças de trabalho, os dedos afundavam forte nas teclas. Quando vieram os computadores, instalou-se um tempo de silêncio laboral e a sonoridade mínima dos novos aparelhos foi produzida por dedos mais deslizantes. A internet fundou sistemas em rede, os e-mails jorraram palavras em telas, as conversas diminuíram, os papéis rarearam, colegas foram emudecendo, distraindo olhares nessas coisas estranhas e espantosas que floram nos monitores negros. Novas palavras apareceram, nascendo ou ganhando inusitados significados - inicializar, deletar, baixar, printar, clicar, formatar.

Américo e Walter viram isso tudo acontecer e contaminar seus pequenos ofícios; diminuíram os documentos das sacolas para Walter carregar; menos folhas vieram para Américo organizar. A Kombi era o passado arrastando-se no presente por uma espécie de força inercial, um refugo marginal do que não conseguiu ainda se transformar. O local que hoje abrigava Américo tinha aparência clássica, era um imóvel com salas imensas, altíssimo pé direito, luminosidade interna fraca, agradável nos verões e glacial nos invernos. Estava lotado na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pelotas, uma célula importante da organização, onde se ensinavam leis e suas interpretações, princípios jurídicos e suas origens, analisavam-se sentidos jurisprudenciais, verificavam-se algumas teorizações filosóficas, entretinham-se pesquisas acadêmicas e praticava-se o direito através do atendimento a pessoas humildes. Walter trabalhava na Divisão de Protocolos, setor localizado no complexo atual da administração central da fundação, um conjunto antigo de edificações refeitas para os tempos novos, mas quando ele foi contratado esse condomínio era um aglomerado fantasma de uma multinacional inglesa que debandara do Brasil, deixando para trás as paredes feias de cimento penteado daqueles blocos em que esteve instalada.

Eles, sempre encarregados da logística burocrática do cotidiano universitário, estavam minguando lentamente, ficando cada vez mais minúsculos no interior do engenho geral que concebera aquele funcionamento despossuído de gente, sem papéis, sem o estalido das máquinas sepultadas e aquelas folhas que brotavam enroscadas nos antigos rolos giratórios e rascantes.

Na semana passada, quando Walter chegou na pracinha frontal, Américo ouviu o motor e desceu as escadas, queria acender um cigarro. Encostaram-se na Kombi para conversar um pouco, mas não havia nenhum assunto novo, falaram quase nada. Américo recebeu uma meia dúzia de envelopes e fumou, havia calma na tarde fria, neblinava. O motorista tornou à Kombi e partiu, Américo viu as marcas dos pneus marcarem o chão molhado, as árvores sacudiram levemente suas copas, ventava ali. Ele retornou para a sua peça, sentou na cadeira, olhou os vidros baços, respirou fundo e morreu.


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