Coluna

Trump e Kim: os resultados da cúpula de Singapura

14 de Junho de 2018 - 08h50 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Cássio Furtado - professor e jornalista

Na última terça ocorreu a mais improvável das reuniões: Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, e Kim Jong-un, líder da Coreia do Norte, finalmente conversaram cara a cara em Singapura.

O resultado: a assinatura de um acordo com quatro pontos. O principal deles, é claro, consiste no compromisso norte-coreano com o desmantelamento de seu programa nuclear bélico. Além disso, EUA e Coreia do Norte reiteraram o respeito mútuo, o compromisso com a paz na Península Coreana, e com a repatriação dos restos mortais de combatentes na Guerra da Coreia, ocorrida entre 1950 e 1953.

A aguardada reunião ocorreu no luxuoso hotel Capella, na paradisíaca ilha de Sentosa, a 15 minutos do centro de Singapura, uma cidade-estado asiática riquíssima e com somente 700 km2. A ilha de Sentosa, recentemente, recebeu estrelas de primeira grandeza da música mundial, como Madonna e Lady Gaga, além de sediar uma filial do Universal Studios. Nessa semana, tornou-se conhecida como o local escolhido para sediar a reunião histórica e carregada de simbolismo.

Até o encontro, inúmeras reviravoltas aconteceram. No início de março, emissários sul-coreanos, em visita à Casa Branca, disseram que Kim desejava reunir-se com Trump. Em seguida, os EUA afirmaram que Trump também tinha a intenção de conversar com o ditador norte-coreano.

No final de abril, Kim e Moon Ja-en, o presidente sul-coreano, fizeram história ao se reunirem no vilarejo de Panmunjon, na fronteira entre as Coreias. Kim foi o primeiro líder do Norte a pisar no Sul em 65 anos.
Mas, na metade de maio, o processo de paz pareceu estar acabado. Irritada com os exercícios militares anuais entre a Coreia do Sul e os EUA, a Coreia do Norte cancelou reuniões de alto nível entre Norte e Sul.
Trump respondeu aos norte-coreanos com outro cancelamento: disse que a reunião de cúpula de 12/6 não ocorreria mais, devido à retórica agressiva da Coreia do Norte.

Dias depois, após pedidos de desculpa e até uma carta de Kim para Trump, os líderes decidiram, mais uma vez, realizar a reunião.

A Coreia do Norte tornou-se um poder nuclear em 2006. Os norte-coreanos, nos últimos 12 anos, realizaram seis testes nucleares, levando ao isolamento quase que completo do país, debilitado por inúmeras punições aplicadas pela comunidade internacional. Mas é fato que as sanções não estavam mais surtindo efeito, tanto é que a maioria dos testes de foguetes, mísseis e armas nucleares ocorreu nos últimos anos, justamente com a intensificação das punições impostas ao país.

Mundo afora, Trump tem recebido crédito pela guinada radical na postura da Coreia do Norte. De um país decidido a enfrentar a comunidade internacional, tornou-se bastante interessado em negociar com a Coreia do Sul e com os EUA. Desde que assumiu a presidência dos EUA, em janeiro de 2017, Trump adotou uma postura agressiva e ameaçadora com a Coreia do Norte e com seu ditador. E teria sido justamente essa postura a grande responsável pelos atuais avanços na região, após décadas de negociações frustradas.

Ainda é difícil afirmar as reais razões para a repentina mudança de postura da Coreia do Norte e de seu líder. Teria sido medo pela postura agressiva e belicosa de Trump? Ou poderia ser uma orientação da China, seu principal parceiro econômico e político na atualidade?

É fato que, com a reunião da última terça, a estatura global de Kim foi elevada. Até então ridicularizado, visto como um ditador de hábitos excêntricos e que comandava um país decadente, Kim passou a ser reconhecido como um interlocutor dos EUA, da Coreia do Sul e da comunidade internacional.

O acordo firmado nessa semana é propositalmente vago. Não coloca prazos exatos para o cumprimento dos objetivos. Por ora, devemos celebrar o momento histórico e esperar que ele renda frutos: a desnuclearização da região e um acordo de paz permanente entre as Coreias, com a participação serena e segura dos EUA nesse processo.

Caso esses objetivos sejam alcançados, os livros de história do futuro irão contar como Trump obteve algo que muitos antes dele tentaram e não conseguiram: que a Península Coreana, foco perene de conflitos, fosse transformada em uma zona de paz e estabilidade. Vozes mais conservadoras, inclusive, já defendem que ele seja agraciado, ainda em 2018, com o Prêmio Nobel da Paz.


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