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Voar é fácil para quem tem amor

13 de Junho de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Pedro Moacyr

Vivia em meio a seus troços. Umas pequenas coisas, quase um nada. Entre elas não recordava se algumas havia que fossem as primeiras, segundas ou terceiras, todas estavam embrumadas na recordação. Ele não dava a isso alguma importância, valia-lhe apenas a impressão de que andava sempre na proximidade do que se ia incorporando à sua história, sem hierarquias e saliências. Não pensava concentradamente sobre a vida, no sentido de planificá-la, organizá-la e nela ter algum dos êxitos elementares que o dinheiro permite. Pelo contrário, havia se deixado levar pelo roldão do tempo, entre precipitações, pouca paz e uma incompreensão ampla sobre os mecanismos que dão curso ao mundo humano. O outro mundo, o natural, gostava de contemplar. As noites altas, a nebulosa indistinta da nossa galáxia, esse estranho pertencimento sem sentido ao infinito, a prumada assustadora das montanhas, os raros acidentes da geografia, as falésias, os fiordes, as vegetações da Terra, os animais, eis o que lhe era de bom apreço.

Quiseram as imperscrutáveis coincidências do destino que o personagem a que me refiro, meu amigo tão antigo que já imemorial, tivesse também o meu nome, Pedro, e, como eu, não fosse pelotense, muito embora eu desconheça a cidade em que a mãe lhe trouxe à luz. Pois esse homem, quando muito jovem ainda, concebeu a ideia de que somente no amor romântico teria vida, porque apaixonado em abstrato se percebia desde sempre. Mais ou menos a meu exemplo, veio para cá no epílogo da adolescência e se fez adulto em solidão. Aquecido pela ideia de que seria preciso muito amar, mas amar mesmo, a ponto de não ter os pés mais sobre o solo e encostar com a cabeça no céu, à maneira dos bichos que voam, ele se empenhou em encontrar na vida uma companheira, uma mulher de encanto, uma criatura que o tornasse para sempre alado, flanando no ar. Dedicado a tal ofício, partilhou muitos colos, tocou todas as mãos, luziu-se nas centelhas dos desejos, e assim foi vida adentro, e tanto e mais que se fatigou dos ardores juvenis, das celebrações ilusórias dos corpos e das companhias fugazes, que iam e vinham porque tanto ele como elas fugiam uns dos outros diante dos precários entusiasmos das adorações ligeiras.

Um dia, após as perscrutações das buscas que empenhou sem muita consciência de que buscava sua mulher, pois a vida não conta aos viventes muito claramente as suas obras, deu-se que ela apareceu-lhe à visão. Não sei o lugar, meu amigo é discreto, cultiva delicados segredos e os mantém junto a si porque junto a outros não faz bem andarem. Disse-me apenas que se aqueceram os mares quando a percebeu, e que ela - vejam que curioso! - chama-se Márcia, como a mulher desse Pedro que sou eu, aumentando a concorrência de sincronismos entre nós, aquele Pedro e eu. E má nota a essas equivalências não dará quem ver que não apenas eu e Pedro podemos equiparar as vidas, mas também as Márcias, a que junto a mim vive e a que é mulher de Pedro, aquele.

Pois bem, ele me falou da incandescência que viu nascer-lhe ao coração quando ela florou no lugar em que se encontraram, e ela parece também ter amolecido os olhos e estreitado às mãos a ele, que viu como o destino pousado à frente. Meu velho amigo (eu já o conhecia desde muito antes de nos entregarmos a essas criaturas homônimas), que nascera para buscar o amor de uma mulher, e fez disso a única utopia do que, em seus primeiros tempos, entendia fragilmente ser a felicidade, vivia agora em um platô alegre. Mantém até hoje um entendimento pequeno sobre a humanidade, seus humores, sua violência, sua candura, a guerra e a paz. Continuava entretendo-se com a natureza, lhe absorviam as imaginações sobre o que entendia serem os vulcões, as tempestades, as chuvaradas sem término. A Márcia estava ao seu lado, sempre, para o mate das manhãs, para as conversas do dia, para o sono da noite, para todos os dias em que beijamos nosso amor, e isso lhe parece muito lindo, disse-me.

Quando sobrevêm as tristezas, as maldades financeiras e as exigências do que não pode cumprir, ele olha para os lados e vê que ainda está cercado de seus troços, aquelas coisas gerais vindas com ele através dos anos sem que saiba exatamente a antecedência de umas em relação a outras. Ele não dá importância a isso, não nasceu para ter coisas. Veio para namorar uma mulher até o fim de seus dias. E assim Pedro tornou-se o bicho alado que quis ser. Conta-me que voar é fácil para quem tem um grande amor. Entendo meu amigo.


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