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A implosão do acordo nuclear iraniano

17 de Maio de 2018 - 08h17 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Cássio Furtado - professor e jornalista

Barack Obama levou anos para costurar um acordo que reduzisse a ameaça de um conflito nuclear em pleno século 21. Na semana passada, o atual presidente dos EUA, Donald Trump, decidiu implodir o acordo nuclear com a República Islâmica do Irã.

Com sua ação, tão esperada nos últimos meses, Trump torna o mundo mais inseguro e propenso ao conflito. Há enorme possibilidade, inclusive, de uma corrida armamentista no Oriente Médio, com consequências catastróficas para a segurança global.

Firmado em 2015, o acordo impôs uma série de duras condições ao programa nuclear iraniano. Entre elas: congelar a construção de usinas nucleares por 15 anos, reduzir em 2/3 o número de centrífugas, vitais para o enriquecimento de urânio e para a produção de armas nucleares, cortar em 98% o seu depósito de urânio enriquecido, além de submeter-se à inspeções periódicas dos fiscais da Agência Internacional de Energia Atômica, encarregada pela ONU das inspeções nucleares.

Em troca, o Irã, governado por seu líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, viu suas contas bancárias mundo afora desbloqueadas, além da suspensão das sanções comerciais às quais tinha sido submetido. Com isso, a curto prazo, os iranianos lucraram mais de 100 bilhões de dólares.

Por anos, o mundo desconfiou das intenções iranianas. Políticos, comentaristas e até mesmo inspetores da ONU cravavam: o Irã terá uma arma nuclear em pouco tempo.

É vital relembrar que desenvolver armas nucleares, na atualidade, é ilegal. Desde 1970, vigora o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares. O acordo, firmado até hoje por 191 países, proíbe que novas nações desenvolvam e testem armas nucleares. Ele permite, somente, que aqueles estados que criaram e testaram seus armamentos até 1967 os mantenham. E a lista é exclusiva: somente EUA, Rússia, China, França e Reino Unido estão nela. Há outros quatro países com arsenais nucleares nos dias de hoje: Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte. Nenhum deles faz parte do tratado.

Desde que tomou posse, em janeiro de 2017, Trump retirou os EUA de outros acordos internacionais indispensáveis, como os Acordos de Paris, que objetivam reduzir o impacto do homem no clima, e a Parceria Transpacífico, de livre comércio entre as nações americanas, asiáticas e da Oceania.

A saída do compromisso com o Irã, portanto, não surpreende a quem acompanha as posturas isolacionistas e extremistas de Trump. Ainda na campanha presidencial de 2016, quando derrotou Hillary Clinton, Trump havia prometido que, se eleito, retiraria os EUA do pacto com os iranianos. Para o magnata, o acordo oferecia muitas concessões ao Irã, enfraquecia Israel e permitia que os iranianos seguissem trabalhando secretamente em seu programa nuclear bélico.

Além da tensão nuclear, o Irã enfrenta os EUA e o Ocidente em outras questões. Na Síria, o Irã apoia a ditadura de Bashar Al-Assad, o presidente que massacra o seu próprio povo desde 2011 na Guerra Civil Síria. Em sete anos, o conflito já deixou cerca de 500 mil mortos e mais de seis milhões de refugiados.
No conflito árabe-israelense, o Irã é um rival tradicional de Israel que, por sua vez, é o maior aliado dos EUA na região. Há décadas, os iranianos vêm dando armas, treinamento e apoio financeiro para o Hezbollah, ou Partido de Deus, um grupo terrorista e partido político libanês cujo principal objetivo é destruir Israel e ajudar a criar um Estado Palestino.

Há três anos, o acordo, chamado de Plano de Ação Conjunto Global, foi visto como uma enorme oportunidade para a paz mundial. E, por tudo que se sabe, o Irã estava cumprindo com os termos daquilo que foi firmado com os EUA, a Rússia, a China, a França, o Reino Unido, a Alemanha e a União Europeia.
A decisão unilateral e injustificada de Trump, portanto, ameaça a paz e a estabilidade mundiais. Por mais frágil que fosse, o acordo com os iranianos oferecia uma oportunidade para a construção coletiva de um futuro melhor.

Agora, é provável que o regime dos aiatolás, afrontado por Trump, decida trilhar um caminho de antagonismo em relação à comunidade internacional. Com isso, o mundo perde e muito. Perde a habilidade de verificar a amplitude do programa nuclear iraniano. Perde o controle sobre suas usinas, agora e no futuro. Sobretudo, perde a capacidade de acreditar na paz no Oriente Médio


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