Artigo

Perguntas mortais

16 de Abril de 2018 - 08h32 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Paulo Rosa - Hospital Espírita, Caps Porto, Ambulatório Saúde Mental - prosasousa@gmail.com

Se é que compreendo o que dizem filósofos amigos, eles não verão com bons olhos que eu ande lendo coisas da facção analítica da filosofia, notadamente uns ingleses e norte-americanos estranhos, com frequência acusados de não abordarem as grandes questões. Sendo leigo e crédulo, olho o que eles, amigos, me mandam, mas também os desobedeço e busco gente como Thomas Nagel, que tem esse excelente título, Mortal questions, num livro de 1979, pela Cambridge.

Gostei da dedicatória do autor a seu pai, Walter Nagel, a quem descreve como “pessimista e cético”. Achei curioso ter um pai assim ou que o filho o visse desse modo e imaginei que o velho, caso tivesse bom humor e fosse bom de papo, constituiria uma bela mistura de pessimismo, ceticismo e leveza, podendo, assim, prosear à la grande conosco. Confessada minha simpatia, cabe recomendar conferências do Nagel filho no Youtube. Vaqueano.

Abre o livro declarando que os 14 ensaios que seguem tratam sobre a vida, suas finalidades, sentidos, valores e mais umas questões da consciência. O primeiro título é sobre a Morte, o último, sobre Subjetividade e Objetividade. No meio, uma gama bem ao seu gosto, tocando o Absurdo, a Sorte Moral, a Perversão Sexual, Rudeza na Vida Pública, Guerra e Massacre (vários ensaios foram escritos durante a guerra criminosa dos EUA no Vietnã), Igualdade, Fragmentação de Valores, Ética sem Biologia e outros. Vê que a filosofia se preocupa amplamente com a vida mortal, como compreendê-la, como vivê-la, destacando que longas e relevantes perguntas muito facilmente evocam longas e desastradas respostas. Filósofo gosta de perguntar, mas é muito crítico com as respostas, o que me parece bom e prudente. A resposta é a infelicidade da pergunta, ideia que corre pelos salões dos doutores. Nagel confessa dar prioridade aos problemas e menos às soluções, valorizar mais a intuição sobre os argumentos, mais a discordância plural e menos a harmonia sistemática: “simplicidade e elegância nunca são razões para pensar que uma teoria filosófica é verdadeira, ao contrário, dão margem a pensar que é falsa”.

Sempre disposto a questionar os próprios métodos de trabalho, o filósofo procura preparar-se para abandoná-los a qualquer momento, se necessário, tendo consciência de que a “superficialidade é muito difícil de evitar, sendo demasiado fácil encontrar soluções que falham em fazer justiça às dificuldades do problema”. Destaca Nagel que devem manter a busca por respostas, mesmo que precisem tolerar a agonia de amplos períodos sem encontrar qualquer abordagem adequada.A lógica erotética - a lógica das perguntas, não o que detratores meus pensarão - tem sentido tanto para filósofos quanto para analistas, pois é através dela que se desenvolve a detalhada investigação das questões, indispensável vereda para esses trabalhadores afins e perguntões. Freud muito perguntou até para o Hans, cinco anos.


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados