Artigo

O jogo de xadrez

16 de Abril de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Gaiger, professor da UFPel, cantor, ator e diretor teatral

Dizem por aí que Deus está sempre meio distraído, com o olhar perdido na imensidão do cosmos e jogando xadrez com um dos seus anjos caídos, Lúcifer, e, por conta disso, as coisas em nosso planetinha vão desse jeito meio torto, um tanto injusto, outro tanto para o espanto. Contam que toda vez que assassinam alguém por sua sexualidade, cor ou pobreza, lá se vai meia dúzia de peões de Deus; os peões restantes se vão quando o narcotráfico assume o poder. Cada barco de refugiados que afunda no mediterrâneo, é um bispo a menos para o Criador; cada vez que Trump e Kim Jong-un arrumam o cabelo, Lúcifer chama a sua atenção: "Acorda! É tua vez de jogar, meu pai!"

Não se sabe se é porque o MBL tem um Livre mentiroso, mas toda vez que um fascista se aponta e destrói coisas belas, Deus perde um cavalo; o segundo cavalo se vai, quando um povo festeja a perda de conquistas sociais e de direitos. Se um governo atende apenas à gula do mercado empresarial e dos bancos, lá se vão as duas torres; quando uma Marielle é executada, Deus perde a dama e, provavelmente, o jogo; quando o Poder Judiciário é injusto, parcial, milionário e, em certos reinos, ainda recebe auxílio moradia, Deus sofre o xeque-mate derradeiro.

De tanto ouvir de Lúcifer: "Tu andas desatento e por isso perde sempre", Deus, desta vez refletiu: olhou demoradamente a sua criação e a constelação e viu que tudo era potencialmente belo. Então, tomou um gole do bom vinho, estufou o peito, olhou nos olhos de seu parceiro de jogo e disse, imitando a voz de um deus grego do Olimpo: "Não irei perder mais. Prepara-te para a próxima partida. Vais ver o que é bom pra tosse!" Lúcifer se despediu em risadas: "Pago pra ver!"

No dia seguinte, quando Lúcifer chegou trazendo um Malbec, as peças já estavam dispostas no tabuleiro. Os dois sentaram frente a frente, brindaram com suas taças e Deus disse: "Desta vez, tu ficarás com as brancas e começarás o jogo. "Isso é irrelevante! Pra mim, tanto faz!", respondeu Lúcifer. Os olhos de Deus fixos no tabuleiro e atentos à primeira jogada. Lúcifer avançou um peão e comentou: "Estás vendo que o quadrilhão do MDB ri da tua cara?" Deus congelou! "Outro golpe, assim de saída!", pensou. Buscou forças e voltou a si: "Humm, meu anjo, presta atenção nos movimentos em solidariedade a Marielle, a minha filha que é um exemplo para todas as mulheres e homens feitos a minha imagem e semelhança!" E avançou um cavalo sobre um peão. Lúcifer foi pego de surpresa. "Miudezas, meu querido pai... Olha ali, naquele país, um candidato belicoso, defensor da tortura, misógino, racista, homofóbico e com boas chances?" E avançou outro peão.

Sem titubear, Deus disse: "Neste mesmo país, veja a quantidade de gente bacana e descolada, que respeita a sexualidade, o que cada um deseja ser, que quer de verdade acabar com o pecado da desigualdade social e sonha um país justo?" Avançou outro cavalo. Lúcifer começou a suar. Avançou um bispo. "Eu te mostro o Gilmar Mendes!" "Eu te mostro a quantidade de professoras abnegadas na educação de meus filhos!" O bispo do anjo caído caiu. O jogo seguiu. "Eu posso te mostrar mulheres e homens que defendem a natureza e todas as etnias, gente que luta contra as corporações do petróleo, do agronegócio, tudo o que destrói minha criação! Xeque-mate!", disse Deus derrubando a dama branca. "Ai, ai... hoje, eu não estou bem. Acho que foi o vinho. Terminamos amanhã. Desculpa meu bom pai!" Lúcifer saiu desolado. Deus pegou a sua taça e olhou para a sua criação: "Potencialmente bela", disse para si mesmo.


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