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Política de saúde mental

12 de Março de 2018 - 08h32 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Fernanda Miranda
Vereadora do PSOL - femirandapsol@gmail.com

O direito à saúde integral deveria ser um dos pilares em qualquer tipo de ação governamental com foco em uma sociedade mais humana. No entanto, a classe trabalhadora convive com diversos retrocessos, como o congelamento de recursos pelas próximas duas décadas, justamente em áreas essenciais para a vida como saúde e educação.

No setor da saúde mental, por conta de uma portaria lançada pelo governo federal em 2017, o investimento que deveria servir para atendimento humanizado, com foco na atenção integral, comunitária, continuada e participativa, terá de dividir seus poucos recursos com políticas manicomiais, indo contra toda a luta pela reforma psiquiátrica.

A política de Saúde Mental em Pelotas não se diferencia deste cenário. Por aqui, temos investimento insuficiente no tratamento em liberdade, um precário atendimento na saúde integral do usuário da saúde mental, na atenção básica e na falta de formação continuada e valorização dos profissionais.

Ainda assim, existem algumas iniciativas locais de intervenção tendo como base o cuidado integral do sujeito em sofrimento. Estas iniciativas somente são possíveis pelo engajamento de servidores que trabalham na área, dos grupos auto-organizados de voluntários ou dos projetos das universidades na Rede de Atenção Psicossocial (Raps).

Desde o início de nosso trabalho na Câmara de Vereadores temos lutado por melhores condições na Raps, inclusive, através de visitas aos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), que resistem com os poucos recursos que recebem. Temos questionado o Executivo Municipal, denunciando e cobrando soluções sobre uma série de problemas, como estrutura inadequada, equipes incompletas, falta de materiais e de formação continuada dos profissionais. No que se refere à internação, temos apenas dez leitos à disposição nos hospitais gerais, o que não supre a demanda, já que a busca através da luta pela Reforma Psiquiátrica é o fortalecimento do atendimento em liberdade.

Ano passado, no dia 7 de março, o senhor Cláudio Lima foi vítima fatal de uma gestão catastrófica da política de saúde mental quando, em crise esquizofrênica, levou um tiro na cabeça. Menos de um ano depois a tragédia atingiu o jovem Pierre, que morreu por conta de uma intervenção desastrosa, no momento em que deveria ser escutado, acolhido, amparado. Não eram de armas que essas pessoas precisavam. Era de uma equipe preparada para esse tipo de atendimento, o que não há em Pelotas. Foram vidas retiradas por conta da falta de política de emergência em saúde mental, na cidade que é governada por quem diz construir um pacto pela paz.

O que mais espanta são as justificativas do Poder Público que, através das secretarias de Segurança e de Saúde, lamentou as mortes, porém referendou as ações quando continuou dando foco no grau de periculosidade do sujeito em crise ao invés de tratar seu sofrimento.

Diante desse cenário, é imprescindível que o Poder Público haja para garantir a existência de políticas públicas eficazes no atendimento das crises psiquiátricas em nosso município. Precisamos refletir sobre a política de saúde mental em Pelotas, que não está dando conta das demandas dos cidadãos pelotenses. Precisamos de uma equipe técnica especializada que trabalhe somente para atendimento dos casos de crise, com tratamento humano, acolhedor e sensível. Convido a todas e todos, que lutam por uma saúde humanizada, a se engajarem fortemente nessa causa.


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