Opinião

O passeio de volta ao porto

21 de Abril de 2017 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Cesar Borges
Médico e ex-reitor da UFPel

Aquela tarde quente não era diferente de outros domingos nos verões passados. Em ruas quase desertas as poucas pessoas que ali passavam, andavam sem pressa na região do porto. Cessara o trânsito frenético de veículos dos dias úteis da semana, o que permitia apreciar a paisagem ao redor. Decidi caminhar com vagar o mesmo trajeto que havia feito desde 2005 até o término de minha gestão na Reitoria. Então desde a esquina da Barroso com a Gomes Carneiro segui em direção ao campus universitário que havia implantado dez anos antes. Os meus passos foram acompanhados por lembranças do muito que lá ocorreu desde os escombros do ex-frigorífico Anglo até sua transformação em salas de aula, anfiteatros e laboratórios. Minha memória ouvia o barulho das construções e as vozes alegres dos estudantes que se misturavam com outras recordações. Dentre estas, duas cenas emergem frequentemente de minha mente. São as imagens das crianças da Várzea invadindo os corredores do novo campus nos finais de semana para aprenderem música e pintura ou simplesmente para dedilhar os computadores colocados nas salas de aula. A outra lembrança é a vista do São Gonçalo, que nunca é igual em nenhum momento do dia. Debruçar-me sobre a janela do gabinete ao fim da tarde e apreciar as águas do pseudorrio fazia-me suportar dificuldades, pensar como enfrentar os desafios, além de me permitir sonhar. Sonhava com a chegada de barcos para atracar no novo porto revigorando a região com suas riquezas trazidas de longe.

Em meio aos devaneios, recordei quão difícil fora a construção da Reitoria à beira do São Gonçalo e igualmente laboriosa a inserção oficial da Universidade no cenário internacional com a tarefa de administrar o Tratado Binacional da Lagoa Mirim para a UFPel e elaborar o Plano da Hidrovia do Mercosul, que entreguei ao Ministério dos Transportes em 2007.

Ao retornar em direção ao centro da cidade, passei pela Cotada, pela antiga Brahma que abrigará o Mercosul Multicultural, pelos velhos prédios da praça Domingos Rodrigues, pela Alfândega com os cursos de Engenharia do Petróleo e Geologia e pelo moderno edifício do Centro de Artes na rua Conde de Porto Alegre. Tudo isso contribuição da UFpel para a região durante nossa gestão. Entretanto, chamou minha atenção o novo porto, dotado de moderna infraestrutura e com os sinais do intenso transporte da madeira.

Naquele momento percebi que a hidrovia do Mercosul poderia deixar de ser mera aspiração. Essa expectativa foi ainda mais fortalecida pelas notícias veiculadas no Diário Popular sobre as reformas no antigo porto e o apoio decisivo da CMPC Celulose Riograndense para aquele empreendimento.

Na década passada a UFPel fora o agente principal para a revitalização do porto, agora a instituição poderá desempenhar novo papel com os cursos de Engenharia Hídrica e Industrial Madeireira. Mais do que isso.

Vale copiar as lições da Finlândia, onde a indústria da madeira, a ciência, a inovação e as artes convivem harmonicamente. Urge associar a coragem dos empreendedores à criatividade dos que por lá vivem. Nessa iniciativa, a Arte no Porto, dos professores da Universidade Federal; a Escola Municipal Ferreira Viana; a Escola de Samba; as associações de moradores e o Jornal da Várzea poderão ser valiosos parceiros na próxima etapa de desenvolvimento da região.

Ao final da tarde no trajeto de volta, na esquina da Benjamin Constant com a rua Alberto Rosa percebi o surpreendente encontro do passado com o futuro. Olhei para a direita e vi o antigo prédio adquirido em minha primeira gestão nos idos de 1996 e posteriormente reformado pela Reitora Inguelore Scheunemann para acomodar as Ciências Humanas e a Faculdade de Educação. Em seguida olhei para a esquerda e, absorto pela bela vista do imponente quarteirão com cores marcantes, vislumbrei o futuro dos cursos de Filosofia, Antropologia, Sociologia e Educação que irão ocupar o novo espaço. A obra foi iniciada na gestão Cesar Borges, transitou pelo período Del Pino e será concluída e inaugurada pelo reitor Pedro Curi Hallal.

Certamente outras ações dessa natureza irão surgir, revelando os novos rumos na vida da Universidade, orgulhosa da região que a abrigou e que, no passado, viu nascer a cidade de Pelotas.

Por tudo isso, caro leitor, vale a pena passear pelo porto.


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