Colunista

O trabalho e o copo de água

20 de Abril de 2017 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Paulo Gaiger, professor e doutor do Centro de Artes da UFPel; cantor, ator e diretor teatral

"Sirvam aos seus senhores de boa vontade, como servindo ao Senhor, e não aos homens, porque vocês sabem que o Senhor recompensará cada um pelo bem que praticar, seja escravo, seja livre" (Efésios, 6:7-8).

É comum a gente se apresentar pela profissão que exerce: sou professor, advogada, atriz, cientista, médica, policial, jornalista, padeiro ou sou qualquer um dos milhares de ofícios que existem por esse vasto mundo de Deus. Raramente ocorre nos identificar como alguém justo, que cultiva flores, ouve Vitor Ramil e Nelson Freire, respeita e convive com a diversidade humana, frequenta exposições de arte e teatros, aprecia um malbec, leva os mandinhos ao parque, gosta de ler, admira as inutilidades, adora um beijo amoroso. Nada disso é mensurável e útil, não entra no PIB nem no Lattes. Ao mesmo tempo em que algumas profissões somem do mapa, outras surgem e, não é para duvidar, com provável efemeridade se comparadas às profissões milenares de ferreiro, carpinteiro, pescador, lavrador, sapateiro, mercenário. Os tempos atropelam e é difícil encontrarmos datilógrafo, acendedor de lampiões, telegrafista ou leiteiro nos classificados.

Homens e mulheres morreram com suas profissões, outros e outras sobreviveram adaptando-se às transformações. De tudo, porém, o que permanece é a identidade através do trabalho. Quem tem trabalho é alguém. Talvez por isso, gente sem trabalho recebe as piores alcunhas, à exceção daquele que se refestela nos juros. O aposentado é um ex-trabalhador, na maior parte das vezes, reduzido a uma biografia abandonada no quartinho dos descartáveis ou em um arquivo de repartição pública ou na memória deletável de algum familiar. E se for pobre ou quase pobre será um peso social, um dito-cujo que não soube se dar bem na vida e deve carregar a cruz do esquecimento das políticas públicas. Desde a virada do século 16, especialmente depois da Reforma, o trabalho foi substituindo as orações como forma de alcançar o perdão e a ascensão aos céus. Quanto mais penoso o trabalho, tratando-se da gente desprovida, mais chances de ser perdoado pelo grande tribunal e ser premiado com o paraíso. Não é à toa que em fins do século 19 e começos do século 20 o sistema laboral era absolutamente atroz. Horas e mais horas gastas por mulheres, crianças e varões convencidos de que tinham que viver para trabalhar até a redenção. O trabalho dignifica o homem quando é digno. Do contrário, o escraviza e o aliena. A terceirização da atividade fim aprovada pelo pior Congresso da história, aponta para uma crescente indignidade das relações de trabalho. Como a homília do tribunal e do paraíso já não cola mais, a não ser para fundamentalistas, os defensores da lei 13.429 apelam para o crescimento e a geração de empregos para abrandar a crise. Em um país animicamente miserável isso faz sentido. Lembra o senhor da Casa Grande que oferecia um copo de água por dia ao escravo e, por isso, era considerado um homem bom. Sobrepõem-se a qualquer reflexão mais profunda e humana, o pragmatismo apoiado no lucro, eficiência e dinamismo do empresariado e a desesperação por postos de trabalho de boa parte da população que, entre outras coisas, busca uma identidade e uma sobrevivência. Não importa se for por um copo de água. Nenhum dos deputados e empresários por detrás deste projeto de lei pode ser identificado como justo e amoroso. Mas é do que precisaríamos para esse país superar verdadeiramente a crise moral, econômica e política.

 

 


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