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Ná Ozzetti e Zé Miguel Wisnik: a cidade vive!

11 de Outubro de 2017 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo GaigerProf. Dr. do Centro de Artes da UFPel; cantor, ator e diretor teatral. 

Uma cidade sem espaços para as artes é um lugar triste e preso a rotinas sem renovação de oxigênio, de ideias e condutas. O querido poeta Mário Quintana dizia, por exemplo, que uma cidade sem cinema era uma cidade morta. Pelotas, felizmente, sobrevive. No fim de semana que passou, só ficou em casa quem quis ou não se informou ou a rotina o prendeu ao sofá à frente da TV. Martinho da Vila esteve no Theatro Guarany. Desde quinta passada, na cidade ocorria o Colóquio Internacional Teatros do Real, organizado pelo Núcleo de Teatro da UFPel. Dele participaram, por exemplo, Pamela Brownell, da Argentina, Patrícia Fagundes, diretora multipremiada da Cia. Rústica, a Cia. Filhos de Tereza, aqui de Pelotas, o escritor e professor de teatro, Davi Giordano, do Rio de Janeiro. Enquanto isso, na Sala Carmem Biasoli, no prédio onde se desdobram parte das aulas dos cursos de Dança e Teatro da UFPel, rolou a apresentação da Transforma Cia. De Dança, de Porto Alegre, comemorando seus 30 anos. No domingo, de tempo nublado e ventoso, vivemos o Festival Cultural da Z3. Mas foi no sábado, na Bibliotheca Pública, que atingimos o Nirvana da experiência estética, graças a Escápula Records, capitaneada pelos irmãos Ana e Lauro Maia, a Circus Produções, de São Paulo, à direção da Bibliotheca, ao restaurante Madre Mia, ao Hotel Manta, ao Studios Cds e ao apoio do Diário Popular. Zé Miguel Wisnik e Ná Ozzetti fizeram um dos melhores concertos musicais que a cidade já recebeu. Zé e Ná não estão nas mídias, raramente tocam nas rádios, talvez sejam desconhecidos para a maioria, mas essa realidade não diz a respeito da qualidade e beleza do trabalho musical da dupla e dos trabalhos individuais de cada um. O show Ná e Zé tem a ver com o CD homônimo que lançaram em 2015, em comemoração à parceria de 30 anos. No repertório, apresentado em piano e voz, canções que imobilizaram o público em um estado de permanente fruição e arrebatamento. Nenhum celular soou, nenhuma selfie foi tirada, ninguém tossiu ou ficou conversando ou bebendo cerveja ou devorando pipoca. Zé é um grande compositor, pianista e escritor, além de professor de Literatura Brasileira da USP. Suas composições, por exemplo, estão nas coreografias Parabelo (com Tom Zé), Nazareth (a partir da obra de Ernesto Nazareth), Sem mim (com Carlos Nuñez) e Ongotô (com Caetano Veloso), do Grupo Corpo; nos filmes Terra Estrangeira, Janelas da Alma e Meninas; em peças teatrais do Grupo Oficina, do Zé Celso; nas vozes de Zizi Possi, Ná Ozzetti, Zélia Duncan e Elza Soares. Como se pouco fosse, Zé provoca encontros com a poesia de Paulo Leminski, Fernando Pessoa, Oswald de Andrade, Gregório de Matos, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Neves entre tantos; tem parcerias com Chico Buarque, Jorge Mautner, Luiz Tatit e Guinga e muito mais. Hummm, quem sabe, por isso, é pouco tocado nas rádios. A sua mão no piano é de uma arquitetura de Gaudí, sempre surpreendente, bela, precisa e em constante movimento. Acompanho a Ná desde o Rumo, grupo paulista fundamental do começo dos oitenta. A cantora e intérprete tem muitos discos e, ao longo de sua carreira, recebeu vários prêmios nacionais. Não é para menos! Ná é uma cantora que mescla uma voz que vai se apossando de nosso corpo, uma técnica absolutamente perfeita e uma serenidade e alegria em cantar. Impossível não se deixar contagiar. Pena que você não estava lá. Foi a primeira vez que os dois estiveram em Pelotas, assim como o Martinho da Vila. Tomara que a Escápula Records siga trazendo espetáculos bons como este para Pelotas, somando-se ao SESC e a outros produtores locais. Em nome da cidade, agradeço ao Zé e a Ná o baita concerto. Mais do que sobreviventes, agora nos sentimos vivos.


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