Estilo
Coluna

As novas formas de amar

30 de Junho de 2018 - 09h08 Corrigir A + A -

Por Lisiani Rotta

Recebi, um dia desses, um poema escrito por um amigo, inspirado numa música de Ed Sheeran, que me contagiou. Inspiração é isso. Contágio. Energia que se inspira. Um aroma irresistível que envolve as mentes e provoca em cada uma, uma impressão. O tema já pairava sobre a minha cabeça como uma nuvenzinha carregada, pois eu havia aberto o último livro da psicanalista Regina Navarro Lins, As novas formas de amar, e sentia relampejarem em minha mente, os seus questionamentos. Regina desconstrói certezas absolutas, acorda mentes adormecidas, desacomoda, liberta. Questiona os relacionamentos tradicionais, o amor romântico, as cobranças, desilusões e traumas gerados pela expectativa de um parceiro idealizado. Sentencia as relações monogâmicas ao declínio e se anima com as mentes abertas dos novos tempos. As pessoas estão se libertando dos modelos impostos de comportamento pra serem quem são, seres humanos com sentimentos, desejos e necessidades totalmente distintos. Concordamos quanto a isso. Ninguém precisa ser o que não é, nem tentar se encaixar à expectativa alheia. A vida é uma só. Mas, me preocupa o avesso da questão. Temo que a regra seja, agora, fugir à regra.

Diz o poema sobre amor e empatia: fiquei sem comer para entrar no teu vestido e sentir como tu. Ao fazê-lo, vi a tua amargura e os motivos pelos quais tu pensas em me deixar. Vestido de ti, me enxerguei como nunca. Pobre, de ideias, ideais, previsível.

É. O amor inventado tem o seu charme. Tanto, que convence. Os livros fazem a lavagem cerebral inicial e Hollywood termina o serviço, com suas imagens e sons no momento certo. Eu, boba, acreditei. Tanto, que fiz dele a minha verdade. Acredito que é possível amar uma pessoa a vida inteira sem que isso seja uma condenação. Acredito que vivenciar um amor longevo alarga a nossa visão sobre nós mesmos. Acredito que enquanto reconhecemos no outro características que nos atraem, encantam e instigam, é possível amá-lo sem esforço ou sacrifício. Concordo que as relações se desgastam ao longo da vida, que as pessoas evoluem de modo diferente, e que é difícil estar em sintonia o tempo todo com o parceiro de uma vida inteira. Mas, esses ajustes que o tempo nos obriga a dar, é uma prova de que a relação monogâmica pode ser mais do que o desejo de exclusividade, segurança, controle ou adaptação ao sistema imposto. Pode ser também, uma relação plena. Uma escolha que nos inspire, mesmo em tempos sombrios, a ser o nosso melhor. Uma escolha amparada por sentimentos de respeito e empatia, mais do que por submissão a uma imposição cultural. Entendo que a desmistificação do amor romântico é necessária e libertadora. As salas de psicoterapia estão abarrotadas de desilusão, infelicidade, baixa autoestima e depressão graças ao amor inventado, que nos compara a metades de laranjas, que garante que há para cada um de nós uma alma gêmea que adivinhará os nossos pensamentos e dedicará a sua vida à nossa felicidade, que gera expectativas inalcançáveis. Concordo que mitos como "ama-se uma única vez na vida", "não é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo", "há, em algum lugar do universo alguém destinado a você" são afirmações que torturam mais do que consolam. Que levam ao desespero pessoas que, diante a um rompimento, acreditam que perderam o amor das suas vidas. Que desiludem os que descobrem, em poucos meses, que se casaram com um ser humano. São afirmações que angustiam os que amam e sentem atração, desejo ou mesmo amor por outras pessoas. Precisamos entender que a verdade jamais será uma só. A sua experiência é a sua verdade, não a verdade universal. Cada um sente de uma forma, reage de uma forma, se encaixa num modo de ser e de se relacionar. Não se pode ignorar a natureza das pessoas e encaixá-las num comportamento padrão. Relacionamento é um acordo particular que só diz respeito aos envolvidos. Por tudo isso, lamento que a monogamia seja um modelo imposto, antinatural e que esteja com os dias contados. Talvez eu seja um pinguim. Considero uma opção tão interessante. Um exercício diário de empatia, generosidade, autoanálise, respeito e superação. Se o amor foi de fato inventado é uma bela invenção. Não deve ser uma regra e nem tampouco exceção. Apenas, ser o que é para cada coração. Instinto, afeto ou desejo. Paixão, tesão ou ilusão. Que ilumine os olhares e seja mais sim do que não.

Comentários Comente

REDES SOCIAIS

Diário Popular - Todos os direitos reservados