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E se...

30 de Junho de 2018 - 09h10 Corrigir A + A -

Por Maria Alice Estrella

E se eu guardasse todos os bons momentos, que já vivi, na esperança de viver outros tantos, não seria um desperdício.

E se eu abraçasse com a alma todos os abraços que meus braços não mais alcançam, não seria inconsequente.

E se eu caminhasse para além de horizontes que meus olhos não veem, não seria infrutífero.

E se eu tivesse meus anseios frustrados, acreditando, ainda, que os sonhos podem se realizar, não seria imprudente.

E se eu fizesse das lágrimas derramadas a mais intensa transparência do olhar, não seria inoportuna.

E se eu me desfizesse do temporário em troca do permanente, não seria desajuizada.

E se eu acreditasse que o impossível se transforma em realidade, desmascarando o pessimismo, não seria insensata.

E se eu escrevesse sobre o sempre sem receio do nunca, não seria desmazelo.

E se eu aspirasse o perfume das flores e o espalhasse em néctar como os colibris, não seria audaciosa.

E se eu voasse nas asas das borboletas, colorindo os dias com vários matizes, não seria leviana.

E se perseguisse o amanhã promissor sem o peso da bagagem do ontem, não seria incauta.

E se eu tecesse uma rede de fios entrelaçados para pendurar meus pensamentos vários e múltiplos, não seria improvidente.

E se eu mergulhasse a mão na argila das palavras para esculpir poema e prosa, não seria precipitada.

E se eu arasse o terreno da alma para preparar a semeadura do simples no complicado de todas as horas, não seria negligente.

E se eu separasse a bonança da chegada da tristeza da partida, não seria irresponsável.

E se eu colhesse o momento presente como dádiva e dispensasse o incógnito futuro, não seria imponderada.

E se eu pesasse os sentimentos numa balança intangível e medisse os afetos com escalas invisíveis, não seria impulsiva.

E se eu salpicasse de estrelas a noite adormecida, perambulando pelo universo com pés descalços, não seria desatenta.

E se eu aceitasse os revezes como degraus para ascensão sem pânico de encarar as alturas, não seria descuidada.

E se eu propusesse o diálogo entre vagos e reservados silêncios, não seria temerária.

E se eu resgatasse as memórias dos arquivos, revisitando o tempo sem marcadores de horas, minutos, segundos, não seria indiscreta.

E se eu, ao invés de desistir, insistisse na busca da verdade implícita e explícita no cerne de cada palavra falada e escrita... (como salientou Mario Quintana: "É uma barbaridade o que a gente tem de lutar com as palavras, para obrigar as palavras a dizerem o que a gente quer."), não seria inadequada.

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