Estilo
Teatro

Estrelas de cinema nunca morrem

Companhia pelotense Você Sabe Quem assume a responsabilidade de levar uma obra-prima do cinema para o teatro

23 de Junho de 2018 - 21h48 Corrigir A + A -

Fotos: Gabriel Huth - Especial DP

norma - divulgacao

Mesmo sem um palco para os espetáculos, eles não desistiram. Seguem escrevendo, produzindo, atuando, dirigindo e desenvolvendo figurinos e cenários para suas montagens teatrais. O grupo formado por jovens entre 20 e 30 anos integra a Você Sabe Quem Cia de Teatro, que já desenvolveu cerca de 20 peças, sendo a maioria autoral. Atualmente é um dos grupos mais ativos da cidade, com apresentações mensais tanto em Pelotas quanto fora daqui. No próximo dia 1º, a companhia completa cinco anos com a estreia de um novo espetáculo: Norma, que recebe duas apresentações na Bibliotheca Pública Pelotense.

O audacioso projeto busca unir duas paixões do diretor Thalles Echeverry: os filmes clássicos e o expressionismo alemão. Livremente inspirada em Crepúsculo dos deuses (Sunset Boulevard), a narrativa acompanha uma estrela do cinema mudo que recusa a aceitar seu esquecimento pelo público. Norma vive solitária em uma mansão, reassistindo seus filmes e acreditando que ainda é relevante.

O foco da peça destoa da trama original. Praticamente descarta a presença de Joe, o amante de Norma e narrador da história, para aprofundar a relação da protagonista e o mordomo Max, fiel companheiro da decadente atriz. O funcionário pouco aparece no filme, mas no roteiro teatral recebe amplo tempo em cena. Max tece uma rede de mentiras e artimanhas para proteger sua diva.

Assim como nos filmes antigos, a narrativa apresenta uma dramaticidade exagerada, que também é refletida na estética. A maquiagem trata os personagens como se fossem uma espécie de pintura viva, exaltando seus largos e distorcidos traços físicos. Enquanto isso, os cenários e figurinos complementam essa atmosfera do passado, valendo-se de uma paleta quase monocromática, com tons de preto, branco e cinza.

Talles conta que desde que assistiu o longa-metragem de 1950 ficou fascinado pela história. "Não tem como não ficar impactado com o filme", acredita. A narrativa permaneceu rodando em sua cabeça por dias até que decidiu levá-la para o teatro. Criou, inicialmente, uma montagem simples para apresentação acadêmica. Após, levou o projeto para a companhia e tornou a experiência em uma produção mais profissional.

Os ensaios semanais acontecem desde janeiro, com Isabelle Vignol no papel de Norma e o próprio Thalles como Max. São apenas dois atores em cena. Ele ainda assina a direção ao lado de Eduarda Bento. A dupla estudou muito o original para desenvolver uma versão convincente do universo criado por Billy Wilder. Apenas alguns diálogos foram utilizados de maneira idêntica ao filme.

Eduarda conta que a história a seduziu por sua complexidade, principalmente por ser psicologicamente tensa. Norma configura, até o momento, como o espetáculo adulto mais denso do grupo e, também, de maior duração. São 75 minutos que passeiam por um ambiente misterioso, distante do realismo, numa oscilação entre a glória e a decadência.

Gabriel Huth_6834

Inspiração constante
A trupe surgiu a partir da reunião de quatro estudantes do curso de Teatro da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), principalmente pela vontade de repassar o conhecimento aprendido em sala de aula. Atualmente são 11 integrantes que realizam cursos, animações, oficinas, contações de histórias e produções tanto para o público adulto quanto para o infantil. O primeiro projeto apresentado foi em 2014, sob o título de A lição.

Desde o início o trabalho artístico precisou ser adaptado a locais que não são específicos para as artes cênicas. Thalles Echeverry e Eduarda Bento, os diretores da nova montagem, contam que nunca pisaram dentro do Sete de Abril. Conhecem o teatro apenas por fotografias. Um depoimento como este demonstra que uma geração de pelotenses foi relegada do contato com a cultura. Sendo uma casa de espetáculos municipal, o prédio na praça Coronel Pedro Osório simbolizava a aproximação da comunidade em geral com a arte, vide espetáculos teatrais, musicais e de dança.

"Sem o Sete, que seria o nosso espaço, buscamos projetos que apoiam o nosso trabalho", comenta o diretor. Assim, a Você Sabe Quem firmou uma parceria com a Bibliotheca Pública Pelotense, que serviu de sede para diversas apresentações. É lugar também de oficinas teatrais e contações de histórias realizadas pela companhia. "Sem a Bibliotheca talvez o grupo nem existisse mais", comenta Thalles. 

Recentemente, a instituição passou a permitir a cobrança de ingresso em atividades realizadas no salão nobre. Por este motivo, a estreia de Norma tornou-se emblemática. Será a primeira vez em que a Você Sabe Quem não irá apresentar gratuitamente seu trabalho em Pelotas. A presença da comunidade nas duas datas (dias 30 de junho e 1º de julho, ambas às 20h) significará a valorização dos artistas locais. O valor da inteira (R$ 10,00) e da meia-entrada (R$ 5,00) é praticamente simbólico, a fim de estimular o hábito de assistir teatro. 

São cinco anos com foco na formação de público para teatro, um trabalho que precisa ser constante. A companhia soa incansável ao apresentar novas produções com certa regularidade. Atualmente possuem três espetáculos em cartaz e mais três em desenvolvimento para estrear no segundo semestre. 

Gabriel Huth_6857

O empenho dos 11 artistas assemelha-se mais com um movimento de nadar contra a corrente. Viver da arte é praticamente um sonho. Os integrantes conhecem as dificuldades, ainda mais em uma cidade do interior. Frente a este cenário, diversos grupos são formados anualmente e acabam se dissolvendo. "Somos um grupo jovem, com muito gás, mas as vezes dá um desânimo", desabafa. Thalles acredita que é preciso unir quem produz arte e lutar junto.

Uma das maneiras de manter o trabalho ativo é através de editais municipais, como o Sete ao Entardecer e o Procultura. Aprovados em ambos, recentemente apresentaram o monólogo As horas nuas no Mercado Central e, para os próximos meses, preparam duas peças infantis: uma nova versão de O incrível caso de Honorato, o rato e a novidade Piratas e a ilha do pelicano

O quê: espetáculo Norma, da Você Sabe Quem Cia de Teatro
Quando: dias 30 de junho (sábado) e 1º de julho (domingo), às 20h
Onde: salão nobre da Bibliotheca Pública Pelotense, na praça Coronel Pedro Osório, 103
Ingressos: antecipados por R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia) à venda na loja Casa das Balas (rua Andrade Neves, 2.091)

 

Comentários Comente

REDES SOCIAIS

Diário Popular - Todos os direitos reservados