Estilo
Crônica

Dia de fight

09 de Junho de 2018 - 11h09 Corrigir A + A -

Por Lisiani Rotta - lisirotta@hotmail.com.br

O que acha de irmos a Buenos Aires no final de semana, em comemoração ao nosso aniversário de casamento, Martha?
- Não sei se quero comemorar o nosso aniversário este ano.
- Por que não?
- Por que uma das boas coisas de se ter um relacionamento longevo é a cumplicidade, a sintonia. E nós não estamos em sintonia, Guto.
- Não?
- Não. Você é praticamente um estranho pra mim.
- Que brincadeira é essa, Martha?
- Quem aqui está brincando? Você disse ou não à Ana, que queria escalar o Everest?
- Talvez tenha dito algo assim. Mas, o que isso tem a ver?
- Você nunca me disse isso.
- E, pra estarmos em sintonia, tudo o que eu disser a alguém tenho que ter dito antes a você?
- Tudo não. Mas, algo como isso eu deveria saber. Você não acha?
- Por quê?
- Quem gosta de saber por uma amiga que o seu marido está a fim de escalar o Everest, sem jamais imaginar que ele havia pensado nisso algum dia?
- Juro que eu tô tentando, mas eu não tô entendendo.
- O que mais eu não sei sobre você, Guto?
- Sei lá. Talvez algo que ainda não tenha me perguntado.
- Como assim? Vou ter que passar a vida fazendo perguntas a você?
- Como vou saber o que você quer saber, se não me perguntar?
- Está dizendo que a culpa é minha?
- Quem falou em culpa?
- Como eu podia adivinhar que você queria escalar o Everest?
- Eu nunca quis que você adivinhasse. Eu nem mesmo sei se quero escalar o Everest.
- Nós costumávamos saber tudo um do outro.
- Ninguém sabe tudo nem sobre si mesmo, Martha.
- O que você está tentando me dizer?
- Não comece! Eu não estou tentando dizer nada. Eu só fiz uma afirmação.
- Eu conheço esse olhar, Guto. Pode dizer! Vamos! Fala! Eu aguento.
- Que olhar? Do que você está falando? Por que está chorando?
- Por que essa vontade repentina de escalar o Everest?
- Não houve nenhuma vontade repentina. Ana contou sobre a experiência dela. Achei interessante. Imaginei que podia ser divertido fazer isso uma vez na vida.
- Achou tão interessante que combinou com ela antes de falar comigo.
- Eu não combinei nada. Estávamos no meio de uma festa bebendo, rindo, brincando. Ninguém ali estava se levando a sério.
- Aí é que você se engana, meu amor! Ana não só levou a sério, como adorou a ideia. Ela já está providenciando tudo. Quer mostrar o Everest a você.
- Não estou entendendo a sua indignação. Acha mesmo que eu escalaria o Everest com alguém, sem conversar antes com você?
- Jamais pensei que me surpreenderia tanto com uma decisão sua.
- Que decisão? Eu não decidi nada. Foi uma conversa de festa. Nem sei se gostaria de uma aventura tão radical nessa altura da vida. Você sabe que o risco me preocupa mais do que me diverte.
- Eu não sei de mais nada. Se soubesse eu não estaria tão surpresa.
- Quer mesmo nos transformar num daqueles casais em que o velhinho resmunga e a velhinha sabe que ele quer o açúcar?
- Não quero adivinhar que você quer açúcar, Guto. Quero não me surpreender quando alguém falar de algum desejo seu.
- Aposto que eu me surpreenderia com a maioria dos seus desejos.
- Não mude de assunto! Que mania você tem de inverter os fatos.
- Desisto. Você já está decidida. Quer muito uma briga hoje. Não importa o que eu diga. Você dará um jeito. Tudo bem. Vá em frente!
- Está vendo? Você sabe tudo sobre mim. Já eu, o que sei sobre você, Guto?

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