Estilo
Crônica

Sobre inimigos invisíveis

09 de Junho de 2018 - 11h08 Corrigir A + A -

Por Thais Russomano

Foi em março deste ano que o Quarto Pilar da praça Trafalgar londrina ganhou sua décima segunda escultura. A inspiração de Michael Rakowitz, um artista nova-iorquino de ascendência iraquiana, foi a imagem feita em pedra de um Lamassu, uma divindade protetora da civilização assíria do norte da Mesopotâmia, destruída em 2015 pelo Estado Islâmico, juntamente com outras relíquias históricas do Museu Mosul de Bagdá, o segundo maior museu do Iraque.

Esse deus é a combinação de um rosto humano com o corpo de um touro e as asas de um pássaro. Nos anos 700 a.C., uma escultura de um Lamassu foi construída e colocada à entrada de um dos portões da cidade de Nínive, o Portão Nergal, que representa o deus da guerra e da morte. Ela resistiu quase três mil anos até ser destruída pelas tropas islâmicas.

O Lamassu do Quarto Pilar foi feito com mais de dez mil latas de calda de tâmara, produzida por uma fábrica iraquiana, e ali ficará até 2020. Essa escultura faz parte do projeto de Rakowitz intitulado O inimigo invisível não deve existir. Nele, o artista pretende recriar sete mil artefatos históricos destruídos em guerras no Iraque e em outros locais.

A iniciativa de estabelecer exposições artísticas na Trafalgar Square foi concebida em 1998, já que o Quarto Pilar permanecia vazio desde 1841, quando a estátua de um cavalo foi encomendada, mas, por falta de verba, não foi executada. A ineficiência financeira do século 19 propiciou que, dois séculos mais tarde, a arte tomasse conta do pilar abandonado com uma sucessão de esculturas, as quais encantam o público não só por sua beleza e criatividade, mas por trazer à tona temas sociopolíticos tão atuais quanto controversos - como o Lamassu de lata de Rakowitz!

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