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Momento bom, falta hábito

Apesar da produção nacional de quadrinhos ter aumentado, público consumidor ainda cresce pouco

02 de Junho de 2018 - 12h40 Corrigir A + A -
O comerciante Júnior do Vale compra brasileiros, mas afirma que não há tanta saída (Foto: Gabriel Huth - Especial DP)

O comerciante Júnior do Vale compra brasileiros, mas afirma que não há tanta saída (Foto: Gabriel Huth - Especial DP)

"Big Jo" é lida por um milhão de pessoas semanalmente via web (Foto: Divulgação)

Odyr está produzindo uma versão gráfica para o clássico

Odyr está produzindo uma versão gráfica para o clássico "A revolução dos bichos" (Foto: Divulgação)

Cada quadro evolui a história mais um pouco. Alguns dão andamento maior, outros representam segundo da trama. Assim funciona também a trajetória dos quadrinhos dentro do Brasil. Com produção crescente - o lançamento de títulos independentes saltou de 13 em 2006 para 181 em 2015 -, o setor ainda busca formas de chegar a mais bancas e mãos leitoras.

O ponto existe há mais de 20 anos, mas foi em 2012 que Júnior do Vale tomou conta da Revistaria São Francisco, acoplada ao Supermercado Nacional da avenida Bento Gonçalves. Inicialmente como locatário, em 2016 comprou o espaço, o transformando no Escudo Geek, com quadrinhos que lugar algum em Pelotas tem - o segredo são os fornecedores, exclusivos da casa. Se no início as HQs ocupavam três prateleiras, hoje representam 80% da loja, com opções que vão desde histórias importadas, passando pelos principais heróis de DC e Marvel, até chegar em lançamentos nacionais como Solar - o caminho do herói, de Wellington Srbek, e Espírito livre, do pelotense Jonas Santos.

Entre elas estará em breve a história criada por Paulo Peraça e desenhada por Valnir Lessa. Ainda não há nome, mas se trata de suspense ambientado em Pelotas. "A ideia é que seja algo bem realista, forte", diz o primeiro. O objetivo da dupla, acrescenta, é que o projeto se torne futuramente uma minieditora voltada aos quadrinhos em Pelotas.

Pouco lidos
Vale, porém, salienta que o público da banca não busca os títulos brasileiros - os da cidade, então, menos ainda. "Santo de casa não faz milagre. Estou sempre comprando porque a produção melhorou muito de qualidade, mas quase não sai." O quadrinista pelotense Odyr, referência nacional no assunto, concorda e acrescenta que os lançamentos nacionais têm aumentado também em volume. "O crescimento do setor continua, entre uma infinidade de pequenas editoras e autoedições e praticamente todas as editoras grandes com um selo de quadrinhos", diz.

Entre as pequenas está a Rico Quadrinhos, voltada exclusivamente para produções brasileiras. Por ele foi lançado A noiva IV, sobre a Revolução Pernambucana. A HQ foi desenhada por Thony Silas e roteirizada por Eron Villar. Outro exemplo, dentro do ramo da editoração, está a Pipoca & Nanquim. Criada a partir de canal homônimo no YouTube, ela tem no catálogo Conto de areia, de Jim Henson e Ramón K. Perez.

Já um exemplo das grandes editoras que apostaram nos quadrinhos é a Companhia das Letras, que inclusive encomendou de Odyr uma adaptação do clássico A revolução dos bichos, de George Orwell, para o formato. "Está a caminho. Os originais estão com a editora, estão na fase de tratamento de imagens, revisão etc. O livro deve sair em agosto. Antes de estar pronto já foi vendido para a Espanha e a Itália, o que é um processo que em geral só começa depois que o livro saiu e desempenhou bem em seu país, então é um ótimo sinal, a editora está com uma perspectiva muito boa de que o livro tenha uma vida muito rica, dentro e fora do Brasil", comenta o autor.

As produções existem, então. Precisam, agora, ser apreciadas pelo público consumidor dos quadrinhos. Na opinião de Odyr, para que essa efervescência encontre alguém disposto a lê-la muito tem de acontecer. "Dinheiro para comprar as edições, que são caras - já que banca de revista e as revistas estão pela morte e há uma tendência dominante ao formato álbum. Hábito de leitura de livros. Hábito de leitura de quadrinhos. E teríamos que ter mais títulos sólidos, com possibilidades de mercado maior pra marcar presença no imaginário nacional. Precisamos de uns sucessos, um Maus brasileiro", elenca, citando a HQ lançada pelo sueco Art Spiegelman, entre 1980 e 1991.

Esse sucesso com o poder de alterar a realidade dos quadrinhos nacionais pode vir a ser Cumbe, do paulistano Marcelo D'Saleste. O título está indicado ao Einser Awards, dos mais importantes prêmios do setor em nível mundial - há dez anos, os também brasileiros Rafael Grampá, Fábio Moon e Gabriel Bá venceram o Einser com a revista 5. "Muito feliz com o sucesso internacional do Cumbe, torcendo como se fosse meu - e do Quintanilha também. Como te disse, precisamos desses sucessos, o meio como um todo, é um movimento onde todos ganham. No outro extremo, tem pessoas fazendo coisas de ponta, muito intensas e pessoais - o Sica, a Paula Puiupo, a Laura Lannes e mais 200 pessoas de quem nem ouvi falar, porque não acompanho o meio tão de perto, mas como disse alguém, quadrinhos é o novo formar uma banda, tem um milhão de coisas acontecendo e podemos ter um futuro incrível se houver um mercado para essas pessoas se desenvolverem. E se houver um país para ler esses livros", diz.

Internet e representatividade
Um dos caminhos para que a boa produção chegue até o público, e Odyr concorda, é a internet. Trata-se de espaço onde tanto quadrinhos quanto leitores estão presentes - basta que se encontrem. Nasceram daí plataformas que disponibilizam HQs para que sejam apreciadas, por vezes de forma gratuita, por outras mediante assinatura.

Uma delas é a internacional Webtoons, pela qual a quadrinista pelotense Julia Arostegi publica Big Jo - e é remunerada por isso. No site, a história é assinada por mais de 100 mil pessoas e tem um milhão de visualizações por semana.

Big Jo fala sobre uma adolescente gorda e as dores e delícias dessa situação. O público que a acompanha, ela disse ao Diário Popular em fevereiro, é formado por meninas entre 12 e 13 anos - exatamente a faixa etária que, ao ler os quadrinhos da personagem, sente-se representada e, talvez, estimulada a também produzir. ""As pessoas gostam de esquecer que as mulheres são uma audiência enorme - a gente tá por aí, indo no cinema, lendo quadrinhos, jogando videogame. E as quadrinistas estão contando suas histórias a partir de sua própria perspectiva", afirmou.

5 dicas de quadrinhos nacionais

Tungstênio, de Marcelo Quintanilha
Ambientada em Salvador-BA, a HQ acompanha a história de quatro personagens: um policial e sua esposa, Kênia, cujo relacionamento está em crise; um sargento aposentado saudosista da ditadura militar e um jovem traficante. O livro foi premiado no 43º Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, o mais importante da Europa, e foi recentemente adaptado para o Cinema pelo diretor Heitor Dhalia - o filme tem estreia marcada para 21 de junho.

Dora, de Bianca Pinheiro
Primeira HQ de Bianca Pinheiro, o livro apresenta ao leitor Dora, uma menina calada que se comunica apenas com a mãe. A trama acompanha o relacionamento das duas e as tragédias que acontecem a sua volta. Lançado de forma independente, tem traços simples, diálogos precisos e momentos tensos e criativos.

Daytriper, de Fábio Moon e Gabriel Bá
Neste livro, o leitor conhece Brás de Oliva Domingos. Milagroso filho de um mundialmente conhecido escritor brasileiro, Brás passa os dias escrevendo obituários e as noites sonhando em ser um autor de sucesso - mas talvez não seja capaz de perceber quando a própria vida começará. Uma das HQs brasileiras mais famosas mundialmente, ela foi relançada recentemente pela Panini.

Guadalupe, de Angélica Freitas e Odyr
HQ ambientada no Novo México, conta a história de uma mulher às vésperas de completar 30 anos. Tudo o que ela quer é esquecer o trabalho no sebo de Minerva e o tio travesti e sair para beber e dançar com os amigos. Porém, a morte da avó traz consigo a missão de cumprir o último desejo da anciã.

Matadouro de unicórnios, de Juscelino Neco
Excelente exemplo de quadrinho brasileiro de horror, Matadouro de unicórnios é recomendado para quem gosta de tripas expostas, mutilações e muito gore. A história traz um serial killer que, em seus assassinatos, mistura comédia, sangue e suspense.

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