Estilo
Crônica

Navegando

26 de Maio de 2018 - 05h00 Corrigir A + A -

Por Maria Alice Estrela

Um tanto ansiosa e bastante surpresa, a página vazia me olha de soslaio, querendo antever o assunto que abordarei. Ambas estamos posicionadas naquele exato momento em que o alvoroço dos pensamentos esbarra numa algazarra ruidosa.

Dentre as tarefas amenas e solitárias do fim de semana, reli antigos rascunhos, guardados numa gaveta. Dessas que a gente abre no meio da tarde de um domingo, despretensiosamente. Encontrei uma página amarelecida com palavras redigidas nalgum tempo que nem sei. Mexer em guardados é, de certa forma, um entretenimento. É como assistir novamente a um filme de que esquecemos, mas que traz cenas onde fomos os protagonistas.

Passei a limpo, sem correções, o parágrafo que partilho contigo, aqui e agora: "Parece que tudo vai começar a entrar nos eixos, terei um espaço conquistado a duras penas, onde minha vida se encaixará nas necessidades básicas e principais".

Indago a mim mesma sobre a razão dessas linhas. Confirmo, no entanto, que é assunto de suma importância. Readquirir o referencial, o rumo, o ponto de ignição. Retomar o prumo, o leme. Içar velas e navegar por águas desconhecidas, nem sempre cristalinas, mas desde há muito desejadas.

A corredeira dos dias vai levando de roldão a beirada dos instantes bons que podemos ter, mas não arranca o pedaço de terra forte e firme onde estão plantados os afetos maiores. E, por eles, a vida se enraíza para dar frutos na fertilidade do criar. Devolve-se o prazer de construir excelentes lembranças no passar rápido do cotidiano para crescer e, assim, atingir a estatura da maturidade de caminhar pelos próprios pés.

De resto, ficaremos, na melhor das hipóteses, adequados ao novo com a serenidade ­de ter encontrado a paz, agradecendo o momento valioso, na perspectiva de que retorne como a curva do rio que se viu na infância e se busca pela vida afora.

Todas as coisas têm seu lugar, todas as pessoas têm seu espaço, todas as procuras têm seu fim quando o sentido de existir se justifica pelas alegrias inesperadas.

Se hoje eu escrevesse pelo momento atual, modificaria quase nada. No espaço entre o ontem e o agora, escrevi outras páginas. Bonitas, algumas delas. Outras, extremamente tristes e amargas. Aprendizado indispensável para valorizar o presente.

A minha verdade se traduz em gestos e palavras com a coerência de ter chegado, sempre pronta para partir. E continuo a ser o que sempre fui: construtora da história da minha vida.

No efêmero de tudo, sou permanente. Não ouço por meias palavras, não sinto pela metade. Sou inteira. Não me fraciono, Estendo-me por sobre o tempo e me dilato no espaço. Destemida guerreira de uma batalha constante, em que defendo a transparência, na coragem de ser emoção e ternura, na medida do que o coração humano é capaz.

Reler páginas escritas em outras épocas é como rever fotos de outrora e visitar de novo a sala de montagem do meu eu, único e peculiar, numa repetição da história do boneco de madeira que adquiriu­ nervos, músculos, ossos e passou a ter vida.

Precisei conhecer o lado espesso das dores e desencantos para me preparar para o encontro com a luz da alegria da recompensa, mesmo que, muitas vezes, o desânimo se faça presente e a solidão me assombre. Sou determinada e confiante.

"Navegar é preciso"... (General Pompeu).

A releitura de mim mesma descortina um "déjá vu" interessante. Extremamente interessante. Deve acontecer o mesmo contigo.

 

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