Estilo
Crônica

Um silêncio que incomoda

26 de Maio de 2018 - 05h00 Corrigir A + A -

Por Thais Russomano

Têm vezes que saio do cinema com a impressão de que vi uma poesia cinematográfica. Essa sensação me invadiu ao deixar o Greenwich Picturehouse, após assistir The Guernsey Literary and Potato Peel Pie Society, de Mike Newell.

Baseado no livro homônimo de Ann Shaffer e Annie Barrows, lançado em 2008, esse drama histórico britânico se passa logo após o término da Segunda Guerra Mundial, em 1946. Nele, Juliet Ashton, uma jovem escritora londrina que vive um momento de pouca inspiração, recebe uma carta de um membro da misteriosa Sociedade Literária de Guernsey, uma organização formada durante a ocupação nazista na ilha. A curiosidade de Juliet acaba levando-a a Guernsey, onde ela conhece os membros dessa Sociedade Literária, entre eles um charmoso e intrigante agricultor. Lá, ela se envolve com uma contundente história de amor, ódio e redenção que une em segredo todos os membros dessa Sociedade e que acaba por mudar sua vida para sempre.

Um dia, Juliet está em seu pequeno quarto alugado em uma casa vitoriana londrina, trabalhando em suas obras, usando uma máquina de escrever, quando a dona do imóvel reclama do barulho de seu dedilhar nas pesadas teclas. Um tempo depois, paradoxalmente, essa mesma senhora sente-se ainda mais incomodada quando a jovem escritora entra em depressão e o silêncio toma conta de seus aposentos.

Essa cena me transportou para minha infância. Já madrugada, não conseguia dormir com o barulho da máquina de escrever que vinha do escritório - o qual classifiquei como o tátátátátá de uma metralhadora. Mas não, nada disso! Era apenas minha vó Rosah criando seus livros. Como a dona do imóvel londrino do final dos anos 1940, o que mais me incomoda hoje é a falta do dedilhar, é o silêncio - um silêncio que este mês de maio completou 19 anos!

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