Estilo
Crônica

Finitude

26 de Maio de 2018 - 05h00 Corrigir A + A -

Por Lisiani Rotta

Quando chego às últimas páginas de um livro bom ou aos últimos capítulos de uma série ou filme sinto tanta pena que me enrolo ao máximo pra chegar ao fim. Se não tiver algo igualmente bom à minha espera não quero terminar. A finitude é um problema pra mim, desde as questões mais simples. Quando Philip Roth parou de escrever para organizar os arquivos que entregaria ao seu biógrafo, há alguns anos, decidi que não leria o seu último livro, Némesis. Eu o amava. Queria ter sido sua amiga. Acho até que fui. Afinal, conheci às profundezas da sua alma, sofri os seus sofrimentos, compreendi as suas angústias, rendi-me ao seu charme e ao seu intelecto. Pena nunca termos batido um papinho, trocado ideias, estreitado laços.

Com Ariano Suassuna senti o mesmo. Queria muito tê-lo visitado em sua colorida casa no Recife, onde eu conversaria longamente com aquele ser que nem era humano, era de luz. Senti muito quando ele morreu. Como sinto agora, a morte de Philip Roth. Algumas pessoas deveriam ser eternas. Gostava de imaginar meu amigo Philip na casa de Zuckerman, personagem do seu livro Fantasma sai de cena. Aquela casa isolada, na Nova Inglaterra, onde, em meus sonhos, conversaríamos por horas a fio sobre a vida. Fico feliz que Zafon (Carlos Ruiz Zafon) seja relativamente jovem e saudável. Pelo menos com ele eu ainda posso esbarrar, em alguma rua da velha Barcelona, onde nasceram A sombra do vento e Prisioneiro do céu. Talvez ele até perceba, sensível como é, que sou uma amiga secreta e sugira um café no Bairro Gótico, pra conversarmos sobre algum personagem em construção.

Quando admiramos alguém assim, sentimo-nos amigos à distância. Quando David Coimbra descobriu que estava doente, eu fiquei arrasada. Não conseguia lê-lo sem me lembrar daquela espada sobre a sua cabeça. Aquilo me causava dor. Odeio injustiças. E a doença é uma grandessíssima injustiça. Quando ele lançou o seu último livro, Hoje eu venci o câncer, o título me deu medo. Como já disse, eu não lido bem com a finitude. Felizmente, uma amiga me deu o livro de presente.

Coloquei-o no alto da minha pilha de espera. A cereja do bolo. Eu sabia que me fisgaria assim que eu o abrisse, o que de fato aconteceu. Só consegui largá-lo dez horas depois, quando cheguei ao ponto final. Meu medo era infundado. Confirmo o que diz o autor. Hoje eu venci o câncer fala de vida, não de morte. É um livro ma-ra-vi-lho-so. David Coimbra, em seu melhor momento, nos comove, diverte, informa e inspira. Gostaria de agradecê-lo por isto.

No mesmo momento em que lia, uma amiga muito, muito querida lutava contra o câncer em estágio avançado. Não era tão jovem quanto David, não tinha a vida inteira pela frente, nem um filho pequeno que deixaria órfão, mas, tinha a mesma coragem e vontade de viver. Bem-humorada e divertida conseguia tornar leve até o difícil momento que enfrentava. Quem a conhecia a amava. Sua beleza e elegância refletiam a sua alma. Como David, ela sabia que nenhum tempo é mais importante que o presente, que o futuro não existe e o passado é construído dia a dia.

Certa vez, carinhosíssima como sempre, brincou comigo depois de ler um texto que fiz pra alguém. Disse-me que queria um igual. De preferência enquanto estivesse viva, pra que pudesse ler. Rimos juntas. Ela disse então, ainda em tom de brincadeira, que gostaria de sentir assim, especial. Enquanto escrevia eu me perguntava como alguém como ela podia não saber o quanto era especial. Descobri, com a reação que teve no mês seguinte, que ninguém sabe. Desde então, eu não economizo elogios a quem eu acho que merece. E, procuro dizer às pessoas que eu amo e admiro, o quanto eu as amo e admiro.

O que a minha querida amiga Maria Helena Marques da Rocha e o meu amigo secreto David Coimbra jamais saberão é o quanto me ensinaram sobre a vida, a felicidade e a finitude nestes últimos dias. Já é noite. Fecho o laptop, abro o chuveiro, acendo uma vela no banheiro, coloco Walk on (U2) no Spotify, ponho a cabeça sob a água e deixo a dor escorrer pelo ralo e a música entrar. Walk on.

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