Estilo
Crônica

Surpresas

14 de Abril de 2018 - 06h02 Corrigir A + A -

Por Maria Alice Estrela

Estavam espalhados em caixas e em gavetas, dispersos e esquecidos. Era sempre adiado o tempo de reuni-los, revisá-los, reencontrá-los. E nem sei bem o que motivou abrir gavetas e caixas para reler, um a um, os poemas escritos e nunca publicados.

De repente, me vi mergulhando nas linhas e entrelinhas de um mar de palavras em forma de poesia.
O mais difícil está sendo separar o joio do trigo. Poemas que descem redondinho pela alma e outros que precisam de ajustes.

Organizá-los em ordem alfabética ajuda muito porque alguns que não são inéditos aparecem no meio da enorme pilha de papel.

Estou reencontrando comigo mesma nessa faceta de poesia, que queira eu ou não, é uma das minhas marcas registradas.

Penso que me dei conta de que está tudo datilografado em folhas de papel e que o mais conveniente seria que eu os colocasse em um arquivo no computador para futuras leituras e, ou, publicações de forma mais prática e acessível.

Nem preciso dizer que estou adorando fazer isso, apesar do trabalho que está me dando.

O mais interessante está sendo sentir surpresa. Isso mesmo! Surpresa ao me deparar com poemas que nem acredito terem sido escritos por mim. Mas todos eles são de minha criação ao longo desse tempo de vivências múltiplas.

Daí surgem à tona as palavras de Fernando Pessoa, no poema sob pseudônimo de Álvaro de Campos:

"Às vezes tenho ideias, felizes,

Ideias subitamente felizes, em ideias 

E nas palavras em que naturalmente se despejam...

Depois de escrever, leio... 

Porque escrevi isto?

Onde fui buscar isto?

De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...

Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta

Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...

Essa tarefa tem provocado em mim a vontade de escrever mais e mais poemas. Um desafio que estava silenciosamente sonolento nalgum lugar em mim.

Publicar livro de poemas é o grande e verdadeiro desafio, na realidade. Por essas e por outras, os poemas inéditos e nunca lidos ficarão ao meu dispor, ao alcance de mim mesma num arquivo no computador para a posteridade.

Talvez, eu publique nas redes sociais da Internet, um ou outro sem maior pretensão, do que a de ser lida no inédito das minhas produções.

Depois de publicado, o poema deixa de me pertencer. Passa a ser de domínio público. O nome do autor pode constar no rodapé, mas isso não impede que viaje nas linhas do espaço e chegue sabe-se lá onde. O poema é lido e pronto. Realiza sua missão. Simples assim.

Enquanto decido se publico um ou outro, aqui e ali, me reservo o prazer de armazená-los num arquivo dentro do meu computador.

Quero saborear as surpresas, lentamente.

 

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