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Corpo exposto à discussão

Exposição de cartazes de acadêmicos do curso de Design Digital da UFPel retomam a polêmica em torno do nu na arte

07 de Abril de 2018 - 12h06 Corrigir A + A -

Por: Ana Cláudia Dias
anacl@diariopopular.com.br 

Em trios, alunos do primeiro semestre do Design Digital da UFPel criaram cartazes inspirados em obras famosas (Foto: Paulo Rossi - DP)

Em trios, alunos do primeiro semestre do Design Digital da UFPel criaram cartazes inspirados em obras famosas (Foto: Paulo Rossi - DP)

A nudez está na história da arte universal desde os primórdios. O corpo despido inspirou centenas de obras de arte famosas e que hoje custam milhões. Entretanto no último ano no Brasil a polêmica foi instaurada depois de acontecimentos considerados, por muitos, pura censura de parte da sociedade brasileira. A temática ainda reverbera e causa acaloradas discussões. Em torno deste assunto alunos do primeiro semestre do curso de Design Digital da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) promovem a exposição de cartazes Design Corpo Nu em que convidam o público a refletir sobre o motivo o papel do corpo nas relações sociais.

A exposição que está montada em painéis no hall de entrada do Centro de Artes (Cearte/UFPel) é uma produção dos alunos da disciplina Projeto de Cartaz, da professora Lúcia Weymar. A proposta pedagógica pretendeu problematizar o tema da nudez ligada ou não ao sexo e à sexualidade. Em trios, os alunos projetaram três cartazes sobre a nudez do corpo, utilizando como referência designers ou artistas plásticos, que são citados nas obras. Obras de nomes como, Andy Warhol, Lygia Clark, Francisco Goya e Leonardo da Vinci, entre outros, serviram de inspiração.

O desafio dos acadêmicos era homenagear esses artistas e, ao mesmo tempo, imaginar como eles se inseririam nesta discussão, mas sem deixar de trazer um trabalho autoral. A gente procura nesta disciplina fazer um trabalho mais ligado a arte e a cultura. "Estamos agora batalhando por um espaço definitivo para as exposições de design. A galeria é um lugar para a gente fazer extensão e mostrar o que produz. Essas questões poderiam ficar em sala de aula, mas estão aqui. A questão mais importante é isso o design", diz a professora.

Falta diálogo

O projeto começou a ser construído no ano passado, logo depois de do fechamento da exposição Queermuseu - Cartografias da diferença na arte brasileira, no Santander Cultural em Porto Alegre. Logo depois a 35ª edição do Panorama da Arte Brasileira no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo foi vetada a menores de 18 anos. 

Cercados pelas duas polêmicas que colocaram de um lado o público que defendia as interferências bradando: "em prol de um país melhor" e em defesa de valores mais tradicionais. De outro, artistas, professores e curadores, estupefatos com o que consideram um retrocesso.
A discussão foi parar em sala de aula. Acadêmica Sarah Marçal conta que se conseguiu fazer uma discussão mais aprofundada do que se via nas redes sociais. "O nu causa tanta polêmica porque a gente não fala sobre."

Para Carlos Roveré o problema é que mesmo quando se fala sobre o nu, ele ainda gera polêmica. "É um tabu da sociedade que está institucionalizado, está moldado desta forma." De qualquer forma o acadêmico defende o diálogo como a melhor saída. "Para conseguir quebrar essas barreiras."

Tarefa difícil

Os acadêmicos contam que até para eles, que tinham se proposto a abordar o tema de forma artística, ultrapassar preconceitos, que alguns nem sabiam que tinham, não foi tarefa fácil. "Demorou para sair do tabu e falar sobre outros aspectos do nu. Por um tempo ficamos naquela mesma conversa. A gente não conseguia transpor as próprias barreiras."

A professor doutora Lúcia Weymar fala que há 30 anos, quando fez a graduação, não se questionava esse tema. Seria um retrocesso absurdo alguém pensar em fechar uma exposição por questões de sexualidade ou corpo, comenta. "É chocante para nós aqui da Universidade, mas tenho amigos que acham perfeitamente natural."

Para uma das curadoras da mostra, acadêmica Alana Kusma, aluna do 5º semestre do Design Gráfico, o problema é que o nu é muito associado a sexualidade. "O corpo nu não é sinônimo de sexo e sensualidade. A gente precisa assumir essa visão do corpo como veículo com o qual a gente interage com as outras pessoas."

Perfeição

Entre as obras há temas sobre a violência sexual, a nudez feminina, auto aceitação e modelos de beleza. Um grupo de alunos questiona, por exemplo, os padrões apresentando imagens com detalhes de corpos de pessoas idosas. Uma forma de questionar a ditadura do corpo perfeito, algo tão exigido pela sociedade atual. "A censura ao Queermuseu foi uma alavanca para se discutir mais o quanto as pessoas se chocam com o corpo. O chocante é o tabu que há na sociedade em relação ao corpo", fala o acadêmico Ruan Carlos Bezerra.

Para os acadêmicos o maior receio é em relação ao sexo, que acabam transferindo para o corpo. "As pessoas veem uma genitália e já pensam em sexualidade e não como uma extensão do corpo", argumenta Roveré.
Já Sarah comenta que quando se fala sobre o tema o interlocutor consegue tomar o próprio corpo para si, como um processo de autoconhecimento. "Se você se aceita você aceita o corpo do outro."

Uma das saídas seria trabalhar a temática desde a infância. "A gente não fala sobre o assunto com as crianças", diz Bezerra.

Serviço
O quê: exposição Design corpo nu
Onde: na Galeria Suldesign do Centro de Artes, rua Álvaro Chaves, 65, Porto
Quando: visitação até o dia 16 deste mês no horário de funcionamento da Cearte
Visitação gratuita

 

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