Estilo
Crônica

Maternidade

13 de Maio de 2017 - 06h00 Corrigir A + A -

Por: Maria Alice Estrella - malicestrella@yahoo.com.br

Desspedida e saudade andam juntas como inseparáveis parceiras e são tão distintas. São, ambas, a corda e a caçamba, a cruz e a espada, o joio e o trigo. Dois momentos que se contrapõem. Despedida é solução de continuidade. Saudade é a ininterrupta sensação de ausência.

Despedida é a lâmina afiada do “até não sei mais”, cortando os ramos onde se aninham felizes momentos. É o fechar das cortinas de um palco quando o espetáculo termina. São os braços recolhidos contra o peito, querendo envolver o vácuo da distância na ânsia de reter o que não se quer deixar para trás, o que não se deseja perder.

Despedida é a separação involuntária de vidas que se entrelaçam, de lugares que encantam, de instantes insubstituíveis.

Saudade é sentimento incurável à luz do explicável. Ameniza com o passar do tempo, mas é persistente companheira de todas as horas. Sentimento que aflora desde o fundo da alma e extrapola pelos poros e pelos olhos. Rios que transbordam, originados pela felicidade de algum momento, pelo afeto de alguém pela beleza de uma paisagem. Saudade é a falta do abraço, da voz, do silêncio, do aroma. Saudade é um espelho sem reflexo como um quadro sem imagem.

Saudade é o silêncio da coxia, a solidão do camarim, o vazio da plateia, tecendo um manto feito de lágrimas peroladas bordado com a agulha prateada da tristeza.

Em cada linha de um poema de Vinicius de Moraes encontro respaldo para as despedidas que protagonizo e para a saudade que agoniza em meu peito.

“Para isso fomos feitos:/ Para lembrar e ser lembrados/ Para chorar e fazer chorar/ Para enterrar os nossos mortos/ Por isso temos braços longos para os adeuses/ Mãos para colher o que foi dado/ Dedos para cavar a terra./ Assim será a nossa vida:/ Uma tarde sempre a esquecer/ Uma estrela a se apagar na treva/ Um caminho entre dois túmulos/ Por isso precisamos velar/ Falar baixo, pisar leve, ver/ A noite dormir em silêncio./ Não há muito que dizer:/ Uma canção sobre um berço/ Um verso, talvez, de amor/ Uma prece por quem se vai/ Mas que essa hora não esqueça/ E por ela os nossos corações/ Se deixem, graves e simples./ Pois para isso fomos feitos:/ Para a esperança no milagre/ Para a participação da poesia/ Para ver a face da morte/ De repente nunca mais esperaremos.../ Hoje a noite é jovem;/ da morte, apenas/ Nascemos, imensamente.”

A poesia escrita com acuidade e talento dispensa maiores detalhes. Despedida e saudade acontecem de repente, não mais que de repente.

Para as mães, cujos filhos deixam o ninho em despedidas breves e para aquelas que deram o adeus eterno a um filho dedico cada linha desse texto num preito de admiração, reconhecimento e carinho.
Mães que convivem com a saudade num acalanto constante e perene com a alma rasgada, equilibrando a vida por entre os dedos de malabaristas da dor.

E com as mães, que estão rodeadas de abraços filiais presentes, me identifico pelos braços filiais que me alcançam, graças ao mundo virtual.

Congratulações para cada uma de nós, expressivas mensageiras do amor em sua mais perfeita tradução: maternidade!

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