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A vez da produção nacional

Mostra Resgate de Cinema promove o encontro do público com os projetos recentes que não chegaram às salas da cidade

13 de Maio de 2017 - 12h00 Corrigir A + A -
 Clarisse ou alguma coisa sobre nós dois (83 minutos), de Petrus Cariry, será exibido na sexta-feira

Clarisse ou alguma coisa sobre nós dois (83 minutos), de Petrus Cariry, será exibido na sexta-feira

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A maratona vai começar. E não é da nova série lançada pela Netflix. A competição inicia a partir desta segunda-feira no Cine UFPel, com a segunda edição da mostra Resgate de Cinema, que oferece a oportunidade de assistir na telona ao melhor da cinematografia nacional que não chegou às salas pelotenses. Durante uma semana, a programação exibe sete filmes e uma minissérie. Todas as sessões com entrada gratuita.

A retrospectiva dos esquecidos é uma idealização da Calvero - Crítica de Cinema, responsável por selecionar produções que tiveram suas estreias comerciais entre 2016 e 2017, principalmente em capitais. Ou seja, circuitos restritos que dificultaram a circulação das obras pelas cidades do interior.

Momento de reflexão
Apesar da seleção não apresentar tantos títulos conhecidos como no ano passado, protagonizado por Olmo e a gaivota, Califórnia e Real beleza, o organizador e crítico Renato Cabral acredita que o novo apanhado reflete os conflitos da contemporaneidade. “Vive-se um momento em que o audiovisual precisa ser debatido, assim como as questões que levanta, como diversidade, preconceito, machismo e outras”, comenta.

Por este motivo, a mostra deste ano apresenta uma mudança significativa: a retirada dos curtas-metragens na abertura de cada noite, para incluir debates após as sessões. “Não queria deixar passar a discussão, sugerir que apenas se falasse com o amigo do lado. Era preciso criar uma grande conversa”, afirma Cabral.
Um dos títulos que reforçaram essa decisão foi o documentário Menino 23, previsto para o primeiro dia de evento, que revela a escravização de crianças órfãs e negras por simpatizantes do nazismo numa fazenda em Minas Gerais.

O episódio assustador ocorreu na década de 1930 e não poderia chegar ao público sem uma reflexão. “Foi uma pena tirar os curtas, pois eles também carecem de janela de exibição”, sente o idealizador, que teve de encaixar as atividades dentro do horário disponível.

A liberação para cada exibição pública foi obtida mediante o contato com diretores, produtores e distribuidoras. “Muitos são parceiros, pois entendem que é uma forma de tornar estes filmes acessíveis”, conta Cabral. O resultado, segundo ele, é muito satisfatório. “Foi uma curadoria que fiquei mais feliz que a do ano passado. Têm filmes que achei que seria impossível e acabei conseguindo apenas com uma resposta de e-mail”, comenta.

Novos formatos
Entre as novidades da mostra está a exibição de uma minissérie gaúcha. Os quatro capítulos de O ninho serão apresentados na sequência, numa sessão comentada com a participação dos diretores Filipe Matzembacher e Márcio Reolon, os mesmos realizadores de Beira-mar. A corroteirista Eleonora Loner, egressa do curso de Cinema da UFPel, também se fará presente.

Outra produção realizada no Estado que faz parte da mostra é Eles vieram e roubaram sua alma, que ganhou vários prêmios em festivais. “O nosso Cinema está cada vez mais indo a festivais e se destacando lá fora. O Rifle, por exemplo, estava recentemente em Berlim”, avalia o crítico.

Homenagem ao aniversariante
O grande destaque do evento é a sessão especial de O céu de Suely, produção de Karim Aïnouz que completou dez anos. Foi escolhido, segundo Cabral, por ser importante para a filmografia nacional, uma vez que foi produzido em uma época de revitalização do Cinema brasileiro.

Na trama, Hermila (Hermila Guedes) é uma jovem de 21 anos que vive em Iguatu, interior do Ceará. Abandonada pelo marido, ela decide iniciar um nova vida em São Paulo. Sem condições financeiras para tal, aposta na ideia de rifar o próprio corpo para obter o dinheiro e conseguir partir para longe, junto do filho pequeno.

O céu de Suely pode ser considerado como centro da mostra, pois encaixa-se em temáticas desenvolvidas por outras produções selecionadas, como O ninho, que também aborda o fluxo vivenciado pelo protagonista do interior para a capital. O fato da personagem principal ser uma mulher relaciona-se com Canção para volta, um dos filmes mais esperados do evento.

Canção para volta traz a turbulenta história de um casal que busca enfrentar as consequências de uma tentativa de suicídio. No elenco, Marina Person e João Miguel. A exibição encerra as atividades no sábado, dia 20, às 19h30min. O filme mais votado ganha uma reprise em sessão a ser agendada para a semana seguinte.

Sem janelas
Os títulos citados são projetos que, por inúmeros motivos, o público acabou não conhecendo. “É difícil os filmes respirarem nos cinemas. Só há blockbusters, um atrás do outro, o que faz não chegar às salas uma quantidade enorme de filmes nacionais”, explica Cabral.

Ainda assim ele não se convence. O problema é ainda maior. “São oito salas de cinema em Pelotas e não tem um horário sequer para produções como Aquárius, Jackie ou O que está por vir?”, questiona. Em sua opinião, no momento as cópias são digitais e esse tipo de situação não deveria acontecer.

Todos possuem sua culpa, tanto o público que não comparece quando produções alternativas são exibidas quanto o distribuidor e os donos das salas que não levam os filmes para as cidades do interior. “Nós também queremos Cinema de qualidade”, afirma.

Próximas realizações
Uma das mudanças para esta segunda edição foi a retirada da palavra “brasileiro” do título da mostra, o que permite que se façam no futuro exibições nas quais possa incluir outras cinematografias além da nacional. “Pode ser que venha patrocínio e possamos exibir produções inéditas no país”, almeja.

Mesmo que tenha caído a palavra, o evento não vai se desvincular do nacional. Esta é bandeira defendida por Cabral. “Gosto de exibir os filmes. É a minha veia cineclubista. O melhor presente é ver uma sessão lotada”, entrega.

Programação
Segunda-feira
19h30min - Menino 23 (80 minutos), de Belisario Franca

Terça-feira
19h30min - O touro (85 minutos), de Larissa Figueiredo

Quarta-feira
19h30min - Futuro junho (100 minutos), de Maria Augusta Ramos

Quinta-feira
19h30min - Eles vieram e roubaram sua alma (75 minutos), de Daniel De Bem

Sexta-feira
19h30min - Clarisse ou alguma coisa sobre nós dois (83 minutos), de Petrus Cariry

Sábado
14h - O céu de Suely (90 minutos), de Karim Aïnouz
16h - O ninho (105 minutos), de Filipe Matzembacher e Márcio Reolon (com a presença dos diretores e da roteirista Eleonora Loner)
19h30min - Canção da volta (80 minutos), de Gustavo Rosa de Moura

Serviço
O quê: 2ª edição da mostra Resgate de Cinema

Quando: de segunda (15) a sexta-feira, às 19h30min, e no sábado (20), a partir das 14h

Onde: Cine UFPel, na rua Lobo da Costa, 447

Entrada franca
*As senhas são distribuídas 30 minutos antes de cada sessão

 

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