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Resgate do tambor símbolo

Expressão sonora da cultura negra em Pelotas, sopapo vive dias de revisitação

06 de Maio de 2017 - 12h00 Corrigir A + A -

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Foto: Divulgação

A cada batuque no sopapo, uma parte do rico e sangrento passado de Pelotas é lembrada. Considerado sagrado e símbolo da cultura negra da cidade e também do Rio Grande do Sul, o tambor por muito tempo foi esquecido, mas sempre voltou ao protagonismo através de iniciativas de sua própria gente. Nos dias atuais, pelo menos dois projetos tentam mantê-lo vivo.

A história do sopapo tem início em 1852, diz-se, na época em que a escravidão era tão presente quanto a riqueza na Pelotas das charqueadas. Daí, o instrumento sempre esteve presente na arte e na cultura do extremo Sul brasileiro, com importante participação na áurea época dos carnavais de rua por estas bandas.

Por volta de 1970, no entanto, iniciou-se uma espécie de “carioquização” da festa popular, ao que a elite branca passou a deixar de lado o tambor artesanal feito de tronco de árvore, o substituindo pelo surdo e trocando o artesão pela produção industrial em longa escala.

A partir deste momento, em vias de extinção, o sopapo assumiu papel de resistência negra em Pelotas, a mais preta das cidades gaúchas, a partir da cultura. Em 2000, Mestre Giba Giba, músico que por mais de 60 anos utilizou o instrumento, retornando ao município, notou a situação e criou o projeto Cabobu. Dentro da iniciativa, junto com o parceiro Mestre Batista, o artista confeccionou mais de cem sopapos, hoje espalhados aos quatro ventos.

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Fotos: Jô Folha

Oficinas
Um deles se encontra com o percussionista Renato Popó, que o utiliza em apresentações e oficinas, como a que ministra para um grupo de mulheres. Ele conta que a aproximação com o instrumento se deu ainda na infância, ao acompanhar as escolas de samba que à época ainda o utilizavam nas baterias. Mais tarde o contato voltou no curso de Licenciatura em Música da UFPel, onde o músico disse ter percebido que o sopapo é mais conhecido pelos estudantes oriundos de fora da cidade do que pelos próprios pelotenses.

Nasceu daí a ideia do Nossopapo, projeto financiado pelo Procultura Pelotas, com desenvolvimento em 2017, que trabalha a percussão com foco no instrumento. Através de oficinas e palestras ministradas pelo mestre griô Dilermando Martins, sucessor do saudoso Mestre Batista na tarefa de manter viva a história dos tambores em Pelotas, e pelo professor da UFPel Mario Maia, estudioso do sopapo.

Percussionista de projetos que vão da MPB ao rock, Popó crê na utilização do sopapo nos mais diferentes ritmos, sem se limitar ao Carnaval, onde tradicionalmente é utilizado. “Por ser grande, ele se sente muito no corpo, vibra muito e emana uma energia diferente”, comenta, quando indagado sobre as particularidades sonoras do instrumento.

Para Popó, é indissociável tocar o sopapo e lembrar da trajetória deste dentro de Pelotas. “Não podemos deixar morrer a história. Quem toca tem de ter um mínimo de noção do que ele significa para a cidade”, afirma, lamentando a substituição do instrumento por outros, como o surdo, na tentativa de fazer da música pelotense algo mais global.

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Fotos: Jô Folha

Educação
Manter viva a memória do instrumento é o objetivo do projeto Tamborada, do músico Kako Xavier, vencedor do Projeto Pixinguinha, Prêmio Produção da Fundação Nacional das Artes. Aprovado no Procultura RS, com a intenção de contar sobre sopapo e também maçambique, tambor folclórico do litoral norte gaúcho.

A iniciativa, em seu começo, rodou o Rio Grande do Sul com palestras e oficinas apresentando os dois instrumentos para crianças das escolas estaduais das cidades de Mostardas, São José do Norte, Alvorada, Barros Cassal e Piratini. Em 2016, com a aprovação no Procultura Pelotas, as atividades começaram a ser desenvolvidas também por aqui. “Estamos conseguindo inserir a educação nesse projeto de fortalecimento das raízes, tendo a arte como base”, comenta Xavier.

Aos poucos, o mestre griô Dilermando Martins foi sendo incluído também neste projeto, como um reconhecimento à importância da oralidade no processo de disseminação da história do sopapo. “A prática, o convívio com o instrumento, isso tudo é essencial. E sem pressa: primeiro levamos os tambores, envolvemos as crianças nas atividades e no momento certo já estavam até mesmo criando uma música, tendo como pano de fundo a própria comunidade. Com isso, a escola aproveita o conhecimento que a criança já tem. É uma conquista”, comemora ele, que é também professor de Educação Física, destacando importantes discussões em sala de aula sobre questões sociais e raciais, por exemplo.

Baú de conhecimento, o mestre griô vê o sopapo como resistência, desde a tão rica quanto sangrenta época das charqueadas em Pelotas. “Era o momento em que o negro sentava, tocava e dançava. Ele é a força viva que representa o negro daquele período. Esteve presente no sofrimento, no açoite da população preta, sendo a trilha sonora dos momentos tristes e felizes. Se o sopapo morre, morre Pelotas”, conta.

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Foto: Jô Folha

Casa
A aprovação no Procultura Pelotas possibilitou a realização de um antigo sonho: a criação d’A Casa do Tambor. Localizado no Laranjal, o espaço de arte realiza constantemente eventos, cujo objetivo é tornar a cultura negra protagonista na cidade através da perpetuação do sopapo como personagem importante da história pelotense.

Por lá, aparece reitor, aparece pescador, aparece negro, aparece branco. “O projeto tem possibilitado um crescimento humano muito grande pelo convívio entre as etnias. É uma união entre as pessoas que vêm para tirar o discurso da escravidão da caixa em que ele se encontrava e colocá-lo em uma discussão mais leve, através da festividade, tendo o sopapo como personagem principal. Se não fosse o tambor, não teríamos nada disso”, comenta Kako.

O objetivo, para o futuro é instalar um exemplar de sopapo em frente ao prédio da prefeitura. “É a forma da população se orgulhar da cultura negra, que ainda é pouco abordada na cidade. Queremos que Pelotas se identifique com essa história”, explica o artista.

Filme

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Em 2010, o Coletivo Catarse produziu documentário contando a história do sopapo e, concomitantemente, do negro do Rio Grande do Sul. Além do filme, o grupo lançou cartilha que ensina a fabricação do instrumento e um livro com entrevistas com Mestre Batista, Giba Giba, dona Sirley Amaro e Sid Silveira. O longa-metragem está disponível no link https://www.youtube.com/watch?v=xIL6Hfq4ZTw.

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