Estilo
Crônica

Os sinais

06 de Maio de 2017 - 06h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Lisiani Rotta - lisirotta@hotmail.com.br

Tudo bem com a senhora, dona Lola? - pergunta Zuleide ao ver a chefe diante da tela em branco do computador.

- Não. Preciso entregar esse texto em duas horas e ainda não sei sobre o que escrever.

- Escreva sobre o que está pensando - responde Zuleide, espanando energicamente a estante de livros.

- Não quero pensar no que estou pensando.

- O que há de errado com o que está pensando?

- É algo que me consome. Prefiro escrever sobre o que me faz bem.

- Por que não faz isso, então?

- Por que eu não estou conseguindo pensar em nada que não seja o que eu não quero pensar.

- Então, não vai ter jeito, dona Lola! Vai ter que escrever sobre isso!

- Não quero dar esse poder a quem me irrita.

- Como assim? ... Ah, entendi. A senhora tá tentando não se irritar com quem lhe irrita, pra não deixar apessoa irritante vencer, é isso?

- Exatamente.
-E, como a senhora consegue isso? Não se irritar com quem lhe irrita?

- Exercitando a paciência como um monge.

- Por que tanto trabalho? Não é melhor dizer logo que está incomodada?

- Eu já disse algumas vezes e não funcionou.

- Será que é de propósito?

- É o que eu me pergunto toda a vez que me deixo vencer pela irritação.

- A pessoa pode não perceber que está lhe irritando.

- Isso também me irrita.

- A senhora também, hein dona Lola? Se irrita com tudo!

- Eu te garanto, Zuleide, que o que me irrita, irritaria o mais calmo dos mortais.

- E o que lhe irrita, Dona Lola?

- Pessoas invasivas. Do tipo que entram no quarto alheio sem bater.

- Hummm...

- Pessoas que parecem dois enormes olhos em cima de você o tempo todo.

- Anhãn.

- Pessoas incapazes de perceber os sinais.

- Os sinais?!

- As pessoas dão sinais o tempo todo, Zuleide. O corpo fala. Os olhos, sobretudo, expressam os sentimentos instantaneamente.

- Entendo.

- Isso não irritaria você? Ser obrigada a falar sobre o óbvio o tempo todo? Se sentir invadida constantemente? Quem gosta de se sentir observada o tempo todo, dentro da própria casa, onde deveria estar completamente à vontade para ser, dizer e fazer o que bem quiser?

- Nossa! Eu to pasma!... Sabe o que eu faria se fosse a senhora? ... Usava a boca!

- Ahhh, esqueci! Pessoas palpiteiras também me irritam. Do tipo que sempre têm algo a dizer sobre tudo, sabe?

- Dona Lola, eu já entendi! Todas essas sou eu, escrita e escarrada! Precisava toda essa volta? Era só falar que eu saía!

- Eu não queria precisar pedir a você, mais uma vez, pra bater antes de entrar, parar de me seguir pela casa e de jogar pó na minha cara enquanto eu tento me concentrar.

- Ah, tem dó Dona Lola! A senhora é muito maniática! Eu sei que a senhora gosta de ficar muda quando tá escrevendo, mas espiei duas vezes e não vi merreca nenhuma escrita nesse videogame. Entrei pra fazer o meu trabalho, ora! Uma de nós precisa render!

- Fora Lola!

- Vixiii! De tanto escrever, desaprendeu a conversar! Já ouviu falar em diálogo, dona Lola?

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