Estatística 11 de Janeiro de 2013 - 06h00

Número de mortes no trânsito é maior que o de homicídios em 2012

Até o final de novembro, 67 pessoas perderam a vida no trânsito na região de Pelotas

Joseph Rodrigues Castro foi vítima de um condutor imprudente e perdeu o movimento das pernas (Foto: Moizés Vasconcellos - DP)
Joseph Rodrigues Castro foi vítima de um condutor imprudente e perdeu o movimento das pernas (Foto: Moizés Vasconcellos - DP)

O ano de 2012 fechou com estatísticas não muito agradáveis quando o assunto é segurança no trânsito. Apesar do trabalho de conscientização realizado por organizações estatais e privadas para diminuir os altos índices, o trânsito continua sendo um dos maiores assassinos atualmente. Até o final de novembro, 67 pessoas perderam a vida no trânsito na região de Pelotas. A causa supera até mesmo os homicídios, 57 no último ano. Nessa reportagem o Diário Popular discute os possíveis motivos que fazem a convivência no trânsito continuar sendo tão agressiva. Os trabalhos de conscientização e melhorias na malha viária realizados até agora são suficientes para reduzir o número de famílias destruídas anualmente?

Do total dos acidentes, 43 foram registrados em vias municipais, dois nas estaduais e 22 nas federais, de acordo com levantamento recente do Departamento Estadual de Trânsito (Detran/RS). Até quinta-feira (10) já haviam sido registradas duas mortes por atropelamento em Pelotas: no primeiro dia do ano um ciclista foi atropelado por uma motocicleta na avenida Juscelino Kubitschek de Oliveira; o segundo acidente tirou uma vida de um menino de apenas seis anos, na avenida Leopoldo Brod. Isso sem contabilizar outras duas mortes registradas nos municípios vizinhos de Rio Grande e São Lourenço do Sul.

Quase 65% das mortes foram registradas em perímetro de responsabilidade do município. O fato chama à discussão a maneira com que o assunto vem sendo tratado pela prefeitura de Pelotas. Recentemente criada pela atual administração, a Secretaria de Gestão da Cidade e Mobilidade assume a responsabilidade da extinta Secretaria de Segurança, Transportes e Trânsito (SSTT), com projetos otimistas para este ano. No entanto, a secretária Josiane Almeida é enfática ao afirmar que para resolver o problema do trânsito não serão abertas novas vias na cidade. A grande aposta é nas alternativas ao automóvel.

Para isso é necessário o trabalhador sentir-se seguro e confortável enquanto utiliza o transporte coletivo e a malha cicloviária da cidade. “Quanto mais ruas oferecermos, mais carro haverá em Pelotas. A solução não é essa, precisamos trabalhar com soluções alternativas”, aposta a responsável pela pasta. Hoje existem em Pelotas aproximadamente 165 mil veículos (desses, 45 mil são motocicletas) e uma população de cerca de 328 mil pessoas, de acordo com o último Censo. Isso significa um carro nas ruas para cada duas pessoas. Além disso, existem os veículos circulando diariamente na cidade de outras regiões do Estado, em busca de serviços, como saúde e educação.

Das medidas de êxito, destaca-se o Radar Móvel, disposto periodicamente em diversos pontos da cidade. A finalidade do dispositivo é autuar os condutores que trafegam em velocidade acima do permitido nas principais avenidas da cidade. “Na maioria dos casos os acidentes com vítima fatal estão associados ao excesso de velocidade. Após a atuação do radar, comemoramos a redução de 60% na acidentalidade”, diz o superintendente de Trânsito e Transporte, Flávio Al Alam.

Vias federais
As obras que devem remodelar a BR-116 em no máximo dois anos já começam a modificar o trânsito no trajeto entre os municípios de Pelotas e São Lourenço do Sul. Para o trabalho funcionar com tranquilidade são feitas reuniões periódicas entre Ecosul, PRF e as empreiteiras responsáveis pela execução das obras. “O trabalho começa com conscientização das empresas e investimentos em sinalização. Por isso, podemos comemorar que desde o início das obras até agora, não registramos um acidente no período”, explica o coordenador de Operações da Ecosul, Eder Portantiolo.

As ações com a intenção de minimizar os acidentes no trânsito são várias. Vão desde adesivagens de charretes e bicicletas - para ficarem mais visíveis no trânsito à noite - até o recolhimento de animais soltos nas vias e conscientização dos proprietários. Esta última ação é feita em parceria com PRF e a Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Mesmo assim o desrespeito à sinalização parece estar presente em todas as regiões do município. “É notório o fato de alguns motoristas pensarem que os sinais de trânsito são meras peças de decoração”, lamenta o coordenador.

Investimentos na região
Ciente dos problemas enfrentados pela 7ª Delegacia de Polícia Rodoviária Federal, o inspetor Mário Zanini projeta melhorias a curto prazo. Nesta semana ele foi a Porto Alegre solicitar à superintendência investimentos no efetivo da corporação, atualmente com um efetivo 50% menor daquele considerado satisfatório. Voltou de lá com uma boa notícia: até o final do mês mais seis policiais serão incorporados à delegacia. Ainda assim, avalia que os investimentos realizados nas estradas da região não conseguem acompanhar o crescente número de veículos nas estradas.

No entanto, está otimista em relação às recentes mudanças percebidas na região. “Com a mudança na lei, acredito que o entendimento em relação à bebida alcoólica também será modificado e o número de mortes cairá”, projeta o coordenador. Entraram em vigor no ano passado alterações na Lei Seca, que a tornam ainda mais rígida. Além de os testemunhos também valerem como prova, a multa sobe de R$ 957,69 para R$ 1.915,38 a quem for flagrado dirigindo sob efeito de bebidas alcoólicas.

Quando reaprender a viver é necessário
O jovem Joseph Rodrigues Castro, de 26 anos, jamais imaginaria que a carona em sua motocicleta oferecida à irmã poderia mudar sua vida. Devido à imprudência de um condutor, hoje o auxiliar de olaria vive sobre duas rodas. O acidente na avenida Salgado Filho lhe reensinou a viver; hoje, sem o movimento das pernas.

Mais uma vez a imprudência no trânsito carimba a vida de uma família inteira. Impiedosamente. O condutor do Chevrolet Monza estava com sinais de embriaguez, não possuía Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e o veículo estava com a documentação irregular. Devido à colisão, Castro foi arremessado e caiu dentro de uma valeta às margens da avenida. O fato lhe rendeu sérias complicações de saúde.

Após ter enganado a morte, o jovem afirma ter reconquistado os valores simples da vida. Recuperado das fraturas no fêmur, deslocamentos nas vértebras da coluna e lesões nos pulmões, Castro embala a vida com bom humor sobre as rodas da cadeira, a fiel escudeira. “Reaprendi a viver e valorizar mais a vida. Antes reclamava de várias coisas sem sentido. Hoje consigo enxergar que não vale mais a pena”, conta, enquanto seu filho, de apenas dois anos, empurra um carrinho sobre o tapete da casa de seus avós, a residência provisória do casal.

O aprendizado é inevitável para toda a família. As rotinas precisaram ser remodeladas e sua esposa é a principal responsável pela assistência. “Aprendi a executar todas as tarefas de um enfermeiro, pois essa era a condição para ele vir para casa”, brinca Carla Gonçalves, de 30 anos. Entre os projetos futuros, estão a reforma e a volta para a residência oficial do casal, na Sanga Funda. Sem falar no convite para participar de um time de basquete para cadeirantes.

A curto prazo a família reúne ajuda para adquirir um modelo de cadeira stand up. Através de um sistema de elevação linear, possibilita a posição ereta do usuário. Seu uso é indicado para o fortalecimento dos membros inferiores, geralmente enfraquecidos devido à paralisia. Além disso, diminui complicações de saúde e permite a realização de atividades cotidianas, o que aumenta a autoestima do usuário.

Comentários
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Verificação: 336

  • paulo 11 de Janeiro de 2013 - 11h50

    Todo este absurdo de carros e motos que povoam as cidades são de responsabilidade dos sucessivos governos que permitiram no país a instalação de 14 montadoras de automóveis e o Governo atual que continua estimulando a compra de mais automóveis pela população através do IPI zero. Depois, querem resolver os efeitos devastadores deste caos urbano com medidas paliativas. Totalmente impossível. Infelizmente vamos ter que continuar convivendo com este inferno no trânsito e também com muito mais mortes....

  • bruno 11 de Janeiro de 2013 - 11h40

    INFELIZMENTE EU NÃO VEJO MAIS O RADAR MÓVEL NAS RUAS, O QUE EU NOTEI QUE OS MOTORISTAS JÁ ESTÃO VOLTANDO A ANDAR ACIMA DA VELOCIDADE PERMITIDA, SERÁ POR QUE DIMINUIU O NUMERO DE AUTUAÇÕES ?????????????.

  • paula domingues de castro 12 de Janeiro de 2013 - 12h04

    mais uma vitima,quando alguem vai da jeito de fazer alguma coisa pela nossa sociedade!nao adianta arrumar a cidade fazendo show gratuitos e enquanto a cidade tas cada vez pior o transito,matanto ou muitas vezes disruindo familias qu nao tem nada ver com o porque do motorista imprudente que acaba colocando a vida de muitos inosentes em risco.pelotas pede socoro no transito!!!!!acorda autoridade.

  • Maicon 13 de Janeiro de 2013 - 01h48

    Todo santo dia vejo a imprudência de motoristas e pedestres. Parece que as pessoas aceitam normalmente estas 67mortes. Tenho certeza que mais da metade dessas vidas ceifadas pelo trânsito poderiam ter sido evitadas apenas com a redução de velocidade. Mas infelizmente as pessoas querem passar por cima das outras de qualquer forma. A principal falha de nos brasileiros é a falta de educação. Sem ela todo o resto é prejudicado. Mas não podemos aceitar que a curto prazo pessoas continuem a morrer de forma tão barbara. A longo prazo a solução é educação,educação e educação. Para os que não respeitam o próximo a única solução é a punição no bolso. Já para os bandidos que dirigem sob influencia de bebida alcoólica e matam no trânsito a solução seria a cadeia,mas estamos no brasil....

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