Entrevista

"Manifestações de grupos não são a opinião pública"

Pré-candidato acredita que maioria da população não protesta e prefere aguardar decisões acertadas dos governos

12 de Junho de 2018 - 08h35 Corrigir A + A -

Por: Vinicius Peraça
vinicius.peraca@diariopopular.com.br 

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Ex-prefeito de Pelotas e pré-candidato ao Palácio Piratini afirma atual governo demorou a tomar iniciativa para recuperar finanças do Estado (Foto: Paulo Rossi - DP)

Aos 33 anos, Eduardo Leite (PSDB) pretende disputar pela primeira vez o governo do Estado. Bacharel em Direito e ex-prefeito de Pelotas, não concorreu à reeleição em 2016 e elegeu sua sucessora, Paula Mascarenhas. Desde então, dedicou-se aos estudos e passou a percorrer o Estado para articular sua pré-candidatura ao Palácio Piratini. Tornou-se presidente do diretório estadual dos tucanos e recentemente fechou coligação com o PTB. Terá como vice na chapa o delegado e ex-chefe de Polícia do Estado, Ranolfo Vieira Júnior.

Na entrevista a seguir, Eduardo defende a necessidade de reduzir o tamanho do Estado através da privatização de companhias, critica a demora do atual governo em apresentar um programa de reformas estruturais e apresenta suas ideias para que o Rio Grande do Sul consiga colocar as contas em dia e voltar a investir. Confira:

Uma vez superado o debate sobre o plebiscito na Assembleia, o senhor retomará a discussão sobre privatizações em um eventual governo?
Acho que sim. É uma pauta que precisa ser discutida e encarada. Temos uma economia dinâmica que justificou a criação de estatais em determinado momento histórico, mas precisa ser reavaliada constantemente. As circunstâncias mudam. Em certo momento se o Estado não tivesse empresa de mineração, de distribuição de gás, não haveria na iniciativa privada essa disposição. Mas hoje há. Talvez seja mais interessante que esteja nas mãos da iniciativa privada e o papel estatal seja o de regular e dar orientações. Muitas pessoas dizem que se as empresas fossem bem geridas dariam lucro. Sim, mas é difícil quando há interesses políticos, mudanças de diretoria a cada quatro anos, interesses corporativos vinculados a setores com estabilidade, licitações que não garantem contratação dos melhores. Isso compromete a eficiência. É um debate que precisa ser feito e estamos dispostos a fazê-lo.

Durante sua administração em Pelotas o senhor aplicou modelo de gestão que apostou em parcerias. Se for eleito, pretende reproduzir no Estado?
Li certa vez que parcerias não são garantia de sucesso. Nem todo governo que teve apoio em consultorias teve sucesso, mas os bons exemplos tiveram consultorias associadas. Isso é usado na iniciativa privada. Precisamos reconhecer que em áreas estratégicas, que precisam de apoio técnico especializado, são bem-vindas. Não é algo determinante, mas entendo que em alguns setores podem significar apoio que garanta mudança de culturas, melhoria de procedimentos.

Como o senhor pretende enfrentar os problemas do Estado com poucos recursos?
Todos os problemas estão atrelados a uma reestruturação do Estado. A função principal, original, é a segurança pública. A formação do governo tem a ver com as pessoas abrindo mão de parte de suas liberdades individuais e conferindo autoridade a um governo para que estabeleça regras para as pessoas conviver em harmonia. Temos falhado muito. Fomos abraçando outras funções e desviando o foco. O Estado deve ter foco absoluto em segurança e cumprir funções sociais importantes em educação e saúde. Isso significa ter posição sobre privatizações, reforma da estrutura, questão previdenciária, carreira dos servidores. Abrimos mão de investimentos e prestação de serviços para sustentar uma previdência deficitária. Investimentos em infraestrutura, na minha visão, devem ser feitos em parcerias com a iniciativa privada. Se a gente aquecer a economia, aumenta a arrecadação sem aumentar impostos e ajuda a fazer frente nas áreas estratégicas. São duas coisas, conjuntamente: animar a economia e focar na arrecadação sem desviar o foco de segurança, saúde e educação.

O PSDB fez parte do governo Sartori, saindo próximo ao final. Por que essa dissociação tardia e o que o senhor representa de diferente?
Em 2014, quando houve a eleição, o PSDB participou da coligação da senadora Ana Amélia Lemos (PP). Entendíamos como o melhor para o RS. Mas foram ao segundo turno o então governador Tarso Genro (PT) e o atual governador Sartori (MDB). Entendíamos que o melhor, entre aqueles dois, era o governador Sartori porque o outro caminho foi muito responsável pelo aprofundamento da crise no Estado na medida em que foram aumentadas despesas correntes em três vezes o valor da receita. Aumentou salários de determinadas categorias de servidores públicos fazendo frente com saques aos depósitos judiciais, que são fonte finita de recursos. Entre as duas alternativas, a mais responsável seria o governador Sartori. Não era o que sonhamos para o RS. Mas foi se fortalecendo dentro do partido a convicção de que deveríamos apresentar uma alternativa nessa eleição. O governo atual ficou encurralado na pauta fiscal, mas as medidas foram tímidas. Não há como tratar isoladamente, sem discutir qual projeto de desenvolvimento queremos adotar para atrair a iniciativa privada. Essa pauta exige novo ritmo, nova postura, atitude mais forte para encarar um desafio urgente do RS.

Assim como a esquerda deve enfrentar o ônus pela prisão do ex-presidente Lula, o senhor manteve proximidade com o ex-senador Aécio Neves (PSDB) e isso deve ser lembrado na campanha. Como pretende lidar?
O principal é identificar a postura de cada um em relação aos problemas de seus partidos. A esquerda não só defende o ex-presidente Lula, como sai às ruas pedindo sua soltura e quer novamente como presidente. Eu não estou defendendo o senador Aécio Neves. Há graves denúncias em relação a ele que devem ser julgadas e se for culpado tem que ser condenado e cumprir pena. Apoiei a agenda que o senador Aécio Neves representava para o país em 2014, que entendo era a mais correta. Continuo entendendo isso do ponto de vista de agenda econômica, de visão do papel do governo, do estado, acho a agenda correta para o Brasil. Com relação à conduta pessoal dele e do seu caráter, quem deve responder pessoalmente é ele, que tem o direito a defesa como o presidente Lula teve. É réu e será julgado por isso.

O senhor tem usado a expressão "coragem para ouvir o silêncio da maioria". O sentido da frase seria semelhante ao que Sartori pensa com a expressão "fazer o que precisa ser feito"?
Não é necessariamente a mesma coisa. Acho que é preciso ter coragem e entender que o que se expressa em manifestações de determinados grupos é legítimo, mas não é a opinião pública. São grupos organizados defendendo seus legítimos interesses. Não defendo que se despreze as manifestações. Mas tenho que entender uma maioria que não está mobilizada, que está no seu dia a dia esperando de nós, que ocupamos eventualmente posições de governo, que tomemos as melhores decisões. Um exemplo é o caso em Pelotas quando tomamos a decisão de reorganizar o orçamento para que pudéssemos viabilizar a UPA com recursos próprios. Tivemos a decisão de não colocar recurso no Carnaval, por exemplo. Naquele episódio, fizemos uma pesquisa que apontou 92% de aprovação da população à nossa medida. Mas estes 92% não foram à rua manifestar apoio à nossa decisão. Os que eram contrários saíram às ruas. Com legitimidade. Mas se pegássemos as manifestações como se fossem a opinião pública estaríamos desprezando uma larga maioria que não saiu às ruas e esperava que tomássemos uma decisão correta. Esta é a maioria silenciosa que digo que precisa ser escutada.

Confira as entrevistas anteriores com os pré-candidatos:

- Miguel Rossetto (PT)
- Jairo Jorge (PDT)
- Roberto Robaina (PSOL)


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