Estudo

Para os idosos, segurança é a prioridade

Dados preliminares de uma pesquisa revelam as impressões dos mais velhos sobre a cidade

11 de Junho de 2018 - 08h00 Corrigir A + A -
Dinâmica. Reuniões foram realizadas com grupos de idosos para coleta das informações. (Foto: Divulgação - DP)

Dinâmica. Reuniões foram realizadas com grupos de idosos para coleta das informações. (Foto: Divulgação - DP)

A idade avançada, naturalmente, impõe desafios para a convivência em sociedade. Quando a infraestrutura da cidade é precária, a tarefa se torna ainda mais difícil. Colaborar para o desenvolvimento de lugares amigáveis aos idosos é o objetivo de uma pesquisa realizada simultaneamente no Brasil e no Reino Unido. Em solo brasileiro, especificamente em Pelotas, além dos entraves impostos pelo desenho urbano, a falta de segurança é um dos pontos mais criticados pelos mais velhos.

A conclusão é baseada nos dois primeiros anos do estudo, que tem previsão de seguir por mais um ano. Durante estes 24 meses, a equipe de 43 pesquisadores focou em questionar, entrevistar e caminhar pelos bairros Centro, Fragata e Navegantes. Tudo para entender como o idoso se enxerga na cidade e quais são os seus anseios. O mesmo método aplicado no Brasil, nas cidades de Belo Horizonte, Brasília e Pelotas, foi utilizado nos municípios britânicos de Edimburgo, Manchester e Glasgow.

Dentre todos os aspectos que envolvem a cidade, como saúde, moradia, transporte e mobilidade urbana, a segurança precária foi o ponto que mais se destacou. “Não basta haver ruas pavimentadas se não há segurança”, frisa a gerente de projetos do estudo, Sirlene Sopeña. Neste sentido, a pesquisa mostra que antes de refazer o desenho urbano pensando na inclusão de todos, é necessário dar condições para que as pessoas saiam de casa. “Os entrevistados dizem ter medo até de esperar no ponto de ônibus”, revela a também pesquisadora e professora da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Adriana Portella.

Na hora de usar o transporte coletivo, Adriana fala que outro problema frequentemente relatado pelos idosos, especialmente os do Centro, são os novos abrigos de ônibus. As estruturas são de vidro e têm bancos de madeira e metal. “As pessoas questionam a escolha do vidro, dizem que não faz sombra. Os assentos são muito estreitos, não são convidativos aos idosos”, explica a pesquisadora.

Mais participação popular nas obras de mobilidade urbana é uma das reivindicações dos entrevistados. “No Fragata, ouvimos muita reclamação sobre a velocidade dos carros na avenida Duque de Caxias”, conta Adriana. Segundo ela, os idosos dizem não conseguir atravessar a via, devido ao baixo número de faixas de segurança. A avenida está sendo requalificada pelo Poder Público.

Calçadas esburacadas e sem rampas, ruas alagadas, falta de banheiros públicos e ausência de bancos também aparecem entre as reclamações, majoritariamente daqueles que moram no Navegantes. “Eles dizem que não podem fazer caminhadas sem parar ao longo do trajeto para descansar”, relata Adriana. No comércio e na busca pela prestação de serviços, o principal lamento é quanto à falta de respeito dos atendentes.

Ainda no Navegantes, a crítica à saúde pública foi contundente. “Os idosos precisam muitas vezes passar a noite na fila ou pagar para alguém pegar uma ficha de atendimento”, conta a professora e pesquisadora. Pagar por um plano de saúde se torna, na maioria das vezes, inviável. “Um dos entrevistados me falou que a mensalidade do plano é quatro vezes o valor do seu salário”, lembra.

O último ano de trabalho será voltado à construção de diretrizes para subsidiar políticas públicas voltadas a uma cidade amiga do idoso. Além de organizar as informações obtidas, os pesquisadores pretendem contar com o apoio da Câmara de Vereadores local para elaborar um projeto de lei nesse sentido. A equipe também foi convidada a mostrar a pesquisa na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.

Expandindo as fronteiras
A pesquisa intitulada Lugares com pessoas idosas: rumo a comunidades amigáveis ao envelhecimento das pessoas é financiada pelo governo britânico e tem o orçamento de 808,3 mil libras esterlinas (o equivalente a R$ 4,5 milhões). Agora, a mesma metodologia de estudo será aplicada em três cidades da Índia (Delhi, Calcutá e Hyderabad). O projeto se iniciou no mês passado e deve seguir até abril de 2020. O orçamento é de 357,7 mil libras esterlinas.


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