Dificuldade

Sem sombra e água fresca

Estudantes e professores da rede estadual encaram o calorão em sala de aula, recuperando o tempo perdido para fechar o ano letivo

12 de Janeiro de 2018 - 07h30 Corrigir A + A -

Por: Vinicius Peraça
vinicius.peraca@diariopopular.com.br 

Greve do magistério gaúcho alterou o calendário (Foto: Gabriel Huth - DP)

Greve do magistério gaúcho alterou o calendário (Foto: Gabriel Huth - DP)

“Tô adorando. Tudo o que eu mais queria agora em janeiro era estar em sala de aula com esse calor.” É com ironia que Criséverton Vargas, 17, fala sobre o calendário escolar. Aluno do 2º ano do Ensino Médio do Instituto de Educação Assis Brasil, ele é um dos milhares de estudantes da rede estadual que - sem outra opção - trocaram as férias pela recuperação dos dias letivos atrasados pela greve do magistério que se estendeu por 95 dias entre setembro e dezembro para protestar contra parcelamentos e atrasos de salários.

Somente no Assis Brasil, maior escola estadual de Pelotas, são 1.790 alunos. Com exceção das crianças dos anos iniciais (1º ao 4º do Ensino Fundamental), cujos professores não paralisaram, todos os demais estão em plena atividade. Mesmo diante do calorão e da estrutura incapaz de amenizar temperaturas que, na última semana, passaram dos 32ºC. Bruna Macedo, 17, também do 2º ano, conta que a situação é ainda pior porque há bebedouros e ventiladores de teto estragados. Inclusive o da sala dela. “É difícil se concentrar com dias tão quentes. A gente só pensa em terminar logo a aula”, diz.

A reclamação dos alunos vai ao encontro da preocupação da vice-diretora Mara Ferreira. Segundo ela, a direção está buscando formas de pelo menos tornar menos pior os dias de abafamento na escola. Porém, os atrasos em repasses são obstáculos. “A gente faz como dá, mas fica difícil consertar ventilador, bebedouros e outras manutenções sem dinheiro. Este governo tem atrasado os repasses”, critica.

Para a 5ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE), as dificuldades poderiam ser superadas com melhor gestão. “Nem todas as escolas estão com problemas, muitas estão com dinheiro em caixa e tudo funcionando. É uma questão de gerenciar os recursos”, aponta o coordenador Carlos Humberto Vieira. Até o momento, apenas a parcela de outubro foi paga aos educandários. Com a quitação dos salários do funcionalismo público ocorrida na quinta-feira, a expectativa é de que nos próximos dias o Estado repasse o dinheiro referente a novembro para as escolas.

Em outra grande escola da rede estadual, o Cassiano do Nascimento, com 1,2 mil alunos, os três turnos estão recuperando os dias letivos. Assim como a maioria das demais, a ordem até o momento é seguir o calendário estipulado pela Secretaria Estadual da Educação (Seduc) e encerrar o ano em março, iniciando o calendário de 2018 no final de abril. “O fundamental é que iremos cumprir os 200 dias letivos. Assim como outras escolas, estamos tendo aulas aos sábados. Mesmo com todo o calor, não pode faltar motivação para darmos aos alunos o melhor ensino possível”, afirma o diretor do período noturno, Marco Mendes.

Aula no pátio
Se escolas maiores enfrentam problemas para lidar com o calor e garantir a qualidade do ensino, em instituições menores a realidade não é diferente. Na Escola de Ensino Fundamental Nossa Senhora dos Navegantes, no Navegantes II, todas as salas têm ventiladores. Porém, os professores reclamam que os aparelhos não dão conta de refrescar as turmas que possuem em média 30 alunos.
“É difícil manter o pessoal atento com tanto calor. Tem o barulho do ventilador, muitos ficam se abanando, outros molham o rosto.

Alguns professores tiram a turma da sala e levam para alguma sombra no pátio e dão a aula por lá”, relata a vice-diretora Gerta Castro.
Para completar o cenário, a baixa pressão da água que chega à localidade é insuficiente para manter as caixas suficientemente abastecidas. Com isso, o reservatório ficou direcionado somente à cozinha. Os bebedouros foram ligados direto à rede do Sanep, o que garante que pelo menos um pouco de água continue saindo. “Mesmo assim, por precaução, sempre pedimos que cada estudante traga a sua garrafinha de casa”, diz Gerta.

Mobilização por férias
Com o conteúdo do segundo trimestre do ano letivo de 2017 recém-concluído, escolas estaduais da cidade lideram um movimento para que o governo do Estado autorize um mês de parada a partir do final de janeiro. Um documento elaborado a partir de reuniões com as comunidades escolares aponta a necessidade da pausa para que os professores e estudantes tenham as férias e não sejam penalizados com o forte calor dentro das salas de aula.

“Este grupo com dez escolas se organizou e propôs esse calendário como alternativa. Ao invés das férias somente em abril, a proposta é que tenhamos já em seguida, retornando no final de fevereiro”, explica o diretor do 24º Núcleo do Cpers, Mauro Amaral. Uma reunião nesta sexta-feira (12) à tarde na Secretaria Estadual da Educação (Seduc) em Porto Alegre entre representantes do Cpers e o secretário Ronald Krummenauer irá discutir a sugestão dos educandários e deve definir se o adiantamento das férias será permitido.

Conforme o coordenador da 5ª CRE, nenhuma escola tem autorização até o momento para descumprir a orientação do Estado de manter as aulas, sem férias.

 


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