Especial

Da polêmica ao Nacional

No mesmo 9 de outubro que o Brasil enfrenta o Inter, no Beira-Rio, pela Série B, há 40 anos outros rubro-negros conquistavam o direito de disputar, pela primeira vez na história do clube, um Brasileirão

09 de Outubro de 2017 - 07h30 Corrigir A + A -
Em 1977, federação concedeu a Pelotas uma vaga no Campeonato Brasileiro

Em 1977, federação concedeu a Pelotas uma vaga no Campeonato Brasileiro

Por Vinícius Guerreiro e Sérgio Cabral

O clássico Bra-Pel que mudou os rumos da rivalidade. A vitória do Brasil no Seletivo de 1977 impulsionou um sonho que os rubro-negros vivem até hoje. O dia 9 de outubro que no passado reservou uma largada, no presente pode significar uma afirmação. Enquanto os comandados de Clemer encaram o Inter no Beira-Rio pela Série B, no túnel do tempo os xavantes celebram um pênalti perdido por Torino aos 45 minutos do segundo tempo. A vitória do Seletivo significou mais do que uma derrota sobre o maior rival. Significou o início da maior paixão dos rubro-negros: jogar o Campeonato Brasileiro.

Em meio a um país que vivia sob o regime de uma ditadura, na década de 1970, um decisão política e esportiva sacudiu Pelotas, a dupla Bra-Pel e o futebol do Estado. A CBD (antecessora da CBF) concedeu ao futebol gaúcho mais uma vaga para o Campeonato Brasileiro de 1977. A entidade optou por dar a vaga para a Princesa do Sul. Uma comunidade já apaixonada por futebol e com dois clubes interessados em, ao lado da dupla Gre-Nal e do representante de Caxias do Sul, disputar a competição nacional.

Porém, decidir quem ficaria com a vaga não foi nada fácil. O Bra-Pel iniciou longe das quatro linhas. Em meio às negociações, o prefeito de Pelotas, Irajá Andara Rodrigues, fez uma proposta inimaginável nos dias atuais: a fusão entre Brasil e Pelotas. O político ainda sugeriu a construção de um estádio municipal. Ideia rechaçada na hora pelos presidentes Cláudio de Andrea, do rubro-negro, e Paulo Gastal, do Lobo. Assim, ficou acordado com a Federação Gaúcha de Futebol, comandada por Rubens Hoffmeister, que um Torneio Seletivo, com melhor de quatro pontos - na época a vitória valia dois pontos -, entre as duas equipes, decidiria quem jogaria a competição nacional em 1978. Pois, pelo impasse e por nenhuma das equipes ter estádios com a capacidade mínima exigida pela CBD, o Juventude herdou a vaga de 1977.

A disputa
A cidade vivia um momento mais do que disputado na rivalidade esportiva local. Assim, ainda em 1977 as equipes contrataram jogadores para reforçar os grupos e lutar pela vaga de 1978. O Lobo contratou o consagrado goleador Flávio Minuano, o goleiro Ney, o zagueiro Renato Mineiro e o pelotense Torino - que iniciou a carreira no Xavante, quando jogou futsal e campo. O Brasil se reforçou com o zagueiro Bibiano Pontes, o volante Osmar, o meia Astronauta e o lateral Joel. Naquele tempo, vitória marcava dois pontos, empate garantia um ponto.

Nos confrontos, o Pelotas, treinado por Getúlio Saldanha, foi melhor, mas o Brasil, de André Heinz, demonstrou maior disposição e raça. Sem falar que contou com maior apoio vindo das arquibancadas, por duas das três partidas serem na Baixada. Apesar da polêmica do alto valor dos ingressos - 40 cruzeiros -, os jogos tiveram uma média de 4 mil torcedores.

Clássico dos improváveis
As narrativas da vida nem sempre são contadas pelos heróis e vilões que imaginamos. Em diversos momentos os protagonistas das mais diversas histórias surgem de onde menos esperamos. O clássico Bra-Pel que decidiu o Seletivo de 1977 foi assim. Um garoto de 19 anos que nunca havia disputado o clássico, um reserva desconhecido, um estudante e um veterano mudaram a trajetória de rubro-negros e áureo-cerúleos. 

Celso Guimarães, hoje com 59 anos, natural de Pelotas, quase mudou a história da dupla Bra-Pel. Aos 19 anos, o então ponteiro direito entrou em campo pela primeira vez para disputar o maior clássico da cidade. Nos dois jogos anteriores, havia ficado no banco de reservas. Veloz e ágil, tornou-se o protagonista esquecido da partida do dia 9 de outubro de 1977. “Todos lembram do Euclides que colocou a mão na bola ou do Torino que perdeu o pênalti. Ninguém lembra quem fez o gol”. Gol? Essa é a discussão histórica deste confronto. Guimarães não tem dúvida: a cabeçada estava dentro do gol, quando o jogador do Brasil tirou com um soco. O lance, ele lembra bem: “Recebi a bola em diagonal dentro da área, chutei e o Gilberto defendeu. Ela subiu e eu, que estava praticamente na marca do pênalti, pulei e cabeceei no canto. Saí para comemorar e o juiz apitou pênalti. Não vi de onde o Euclides surgiu”.

Euclides chegou ao Bento Freitas por acaso. Havia deixado a carreira de jogador de lado. Veio para Pelotas para estudar Odontologia. O vice-presidente de futebol xavante, Vanderlei Albio da Silva, descobriu que o lateral esquerdo, que havia atuado no Grêmio e na Seleção Brasileira de Novos, estava na cidade. Não tardou o convite. Aceito. Euclides virou herói para os rubro-negros. “Eu vi que o Gilberto saiu mal do gol e o Celso Guimarães estava bem para finalizar. Quando vi ele cabecear, me atirei e dei um soco na bola - foi pênalti. Muita gente diz que a bola estava lá dentro, mas eu não vi. Sei que voei e me atirei para livrar o gol de empate, que levaria a um novo clássico para decidir a vaga.”

A penalidade, aos 45 minutos do segundo tempo, era a chance do Pelotas levar a decisão para o quarto confronto - que seria disputado na Boca do Lobo. Na bola, um dos mais experientes: Torino. Cria do futebol de várzea e do rival xavante. Ele bateu no canto direito, a bola ainda raspou na trave. O goleiro Gilberto havia caído para o outro lado. O lance explodiu o Bento Freitas e mudou a história xavante. Até hoje, Torino, por ter saído da Baixada, é acusado de ter errado de propósito. Guimarães não concorda: “Para mim ele bateu muito bem. Deu azar de a bola sair. Era um grande profissional, não erraria de propósito”.

Toda essa polêmica não teria importância se não fosse um nome: Tadeu. Aos 21 anos, na época, o atacante foi chamado em meio à partida. Luiz Fernando teve a perna fraturada em uma dividida com Darci Munique. Entrou com 24 minutos, poucos o conheciam. Inclusive os defensores áureo-cerúleos. E aproveitando-se deste anonimato apareceu livre na área para finalizar. Fez o gol que levou o Brasil pela primeira vez ao Campeonato Nacional que disputa até hoje. “A sensação foi maravilhosa. Dar a alegria àquela torcida e aos companheiros. Que festa! Não esperava jogar”, contou.

O recurso
A direção do Pelotas tentou anular o resultado do jogo na Federação, alegando erro do árbitro. Mas foi mantido o resultado e a estreia do Brasil no Brasileirão de 1978. O rubro-negro pegou o gosto e há 40 anos participa de competições nacionais, ficando fora em raros anos.


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