Patrimônio histórico

Uma longa lacuna

Para a população a ausência do espaço é prejudicial; para quem produz arte o prejuízo é ainda maior

22 de Novembro de 2016 - 06h27 Corrigir A + A -

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(Foto: Carlos Queiroz - DP) Theatro está interditado desde 2010

O ano de 2017 será mais um em Pelotas sem o Theatro Sete de Abril disponível - o sétimo inteiro, oitavo se 2010, quando a interdição ocorreu, for levado em conta. Se para a população a ausência do espaço é prejudicial, para quem produz arte o prejuízo é ainda maior: as portas fechadas do teatro público da cidade significam quase uma década de defasagem na formação de público, aumento nos custos de produção de shows e espetáculos, entre outros danos.

De acordo com a Secretaria Municipal de Cultura (Secult), 2017 será mais um ano voltado a trâmites burocráticos. Nos próximos dias o órgão receberá o orçamento para o restauro revisado, com o objetivo de diminuir os custos e, assim, ter viabilizada a obra. Também estão sendo finalizadas as aprovações e as correções do projeto junto ao Corpo de Bombeiros. Para os primeiros meses do ano que vem a pretensão é abrir licitação, o que só será possível após aval do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Assim que iniciados, os reparos devem demorar 18 meses até ficarem prontos.

Para a professora Curso de Dança - Licenciatura (UFPel) e coordenadora do Tatá - Núcleo de Dança e Teatro, Maria Falkembach, para se compreender a importância da existência de um espaço público para cultura e arte é preciso primeiro entender o que produz a sua ausência. “Entendo que a arte cênica é pública, porque é na relação entre artistas e público que ela existe. Isso não é jogo de palavra, isso é: é na relação, no espaço de contato entre a ação cênica e a (re)ação do público que a poesia cênica acontece. Se o espaço é definidor da obra, a produção de uma arte pública implica um espaço público. Voltando ao pensamento lógico, a ausência de espaço cênico público implica diretamente na ausência de arte cênica”, afirma.

Para ela, o efeito imediato da falta do Sete de Abril e de qualquer espaço público é uma lacuna na produção artística, bem como na circulação das obras. “Isso produz ausência de dança e teatro, isso produz ausência de artistas da dança e do teatro; isso produz ausência de técnicos das artes cênicas; isso produz ausência de produtores culturais; isso produz ausência de público. Isso produz a negação do acesso à arte, direito de todos”, diz.

Em desabafo - o termo utilizado é dela - Maria critica a ausência de pensamento cênico e espacial e de conhecimento das possibilidades do corpo, etapas que contribuem com a construção de uma educação integral, humanizadora e crítica. “A falta do teatro contribui para a ideia de que arte não é fundamental para a educação. Portanto, produz burrice no sentido de impossibilidade de se colocar em relação, de escutar, de diálogo, de se colocar em risco e ampliar seu mundo. E a burrice é irmã do fascismo.”

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(Foto: Divulgação) Imagem do Theatro lotado durante apresentação

Maria cita exemplos. Conta que nos últimos anos, em Pelotas, diversas vezes foi contatada por grupos de teatro e dança com circulação nacional com interesse em se apresentar na cidade. Projetos financiados por editais públicos e privados, diz, cuja única necessidade era um teatro público que garantisse a infraestrutura necessária - caixa cênica, som, luz, plateia. O pelotense não sabe quais são estes espetáculos.

Sem possibilidades
Ela acrescenta também caso vivido pelo Tatá, grupo que coordena. A companhia tinha verba para apresentações em teatro com o objetivo de qualificar o trabalho, desenvolver desenho de luz e som e a experiência com caixa cênica. Fizemos apresentação no Teatro São Pedro e no Teatro Renascença, em Porto Alegre. “Não fizemos em Pelotas. Ausência. Poderíamos ter feito temporada em Pelotas, poderíamos ter contribuído com a formação de público em dança contemporânea... poderíamos. Ausência”, comenta.

Celso Krause, músico que por diversas vezes tocou no Theatro Sete de Abril, é mais um dos artistas que lamentam a falta do local. Ele vê como o fechamento de mais portas entre tantas que têm desaparecido para quem precisa se apresentar para se sustentar. “Até as casas noturnas estão fechando. Acho que o Sete nunca foi exatamente público, mas ele fechado é complicado. Nesse momento de crise inventada e que agora de fato existe, nenhum governo vai colocar a cultura como prioridade. E acho que existem coisas mais urgentes mesmo, mas eles têm que entender que existem trabalhadores. Nem todo mundo é superstar dentro da música”, comenta.

Krause não vê perspectivas de que a situação possa mudar em um futuro breve. Para ele, a única maneira de o Sete voltar à ativa é ocorrer uma mudança no modo como se faz política cultural, em todos os âmbitos. “Ele não era nem para ter sido fechado. As pequenas obras estavam resolvendo”, critica. O teatro foi interditado em 2010 pelo Ministério Público por conta de necessidades de obras estruturais.

Alternativas
Se as obras de restauro do Sete de Abril não avançam, a produção cultural da cidade cresce cada vez mais, estando Pelotas vivendo momento ímpar no setor por conta da miscelânea causada pelo SiSu. São estudantes de diferentes partes do país que trazem suas produções para cá e até o momento não dispuseram de um teatro público para apresentações. Saídas foram criadas, a arte não pode parar.

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(Foto: Divulgação) Sofá na Rua virou alternativa

Uma delas foi a proliferação de eventos a céu aberto, com a rua sendo o palco. O Piquenique Cultural foi pioneiro, levando diversas atrações para diferentes praças da cidade já há seis anos. Depois surgiu o Sofá na Rua, surgido dentro do coletivo Fora do Eixo e hoje um verdadeiro patrimônio da população pelotense, realizando shows de artistas locais e de fora na região do Porto.

Outra aliada dos artistas no período tem sido a Bibliotheca Pública Pelotense, que tem acolhido peças de teatro e shows de lançamentos de discos, entre outras atividades, além de realizar suas próprias produções.

Outros teatros públicos da região e suas interdições

Teatro Esperança
Jaguarão
Orçamento: R$ 6 milhões
A obra: financiado pelo PAC Cidades Históricas, o restauro contemplou a cobertura do piso, entre outros reparos
Tempo de interdição: cinco anos

Teatro Municipal de Rio Grande
Rio Grande
Orçamento: R$ 350 mil
A obra: os reparos no Teatro Municipal de Rio Grande foram muito menores em comparação com aqueles que são pretendidos ao Theatro Sete de Abril. Foi alterada apenas a parte de prevenção a incêndios, como a incorporação de um carpete e barras antichamas. Há ainda a necessidade de ampliação de camarins e modernização do palco, obras que serão feitas aos poucos. Em suma, trabalhou-se apenas para reverter a interdição.
Tempo de interdição: dois anos e oito meses

Os anos de portas fechadas

Março de 2010
O teatro é interditado pelo Ministério Público. Como justificativa a necessidade de obras estruturais. A última reforma havia sido em 2001 com atenções voltadas à recuperação da rede elétrica, do telhado, do reboco e dos camarins.

Outubro de 2014
A primeira parte da obra de restauro, que abrangia reparos no telhado do Sete, foi finalizada e entregue à população. Mesmo assim, o teatro continuou fechado.

Novembro de 2015
Com orçamento inflado para R$ 20 milhões, a Secult rechaçou a possibilidade de o Sete de Abril ser reinaugurado em 2016. O secretário Giorgio Ronna, entretanto, afirmou esperar que as obras finais se iniciassem em tal ano, o que acabou por não acontecer.

Julho de 2016
A Solé Associados, empresa responsável pelo projeto de restauro do Theatro Sete de Abril, apresentou o passo a passo da reforma. Naquele momento, o prefeito Eduardo Leite (PSDB) salientou a garantia de R$ 7 milhões oriundos do Iphan, sendo a intenção iniciar as obras com tal recurso.

Primeiro trimestre de 2017
A Secult pretende nos primeiros meses de 2017 abrir a licitação para o início das obras, necessitando da aprovação do Iphan para tal.

 

 


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